"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
Tinha um coração grande com espaços vazios. Família e amigos que já não eram. Noites em claro, olhos rasos de água. Porquê? Porque é que as pessoas partem em vida, quando a morte já é tão dolorosa e radical? Cada vez tolero menos as brigas por ninharias, os amuos por um grande pote de nada, o semblante pesado pelo estacionamento que estava cheio. "Eles não sabem que vão morrer.", dizia Falabella. Não sabem mesmo, ou viveriam a vida, um dia de cada vez, sugando cada pedaço de felicidade que em instantes incertos nos batem à porta.
Sei que levamos hoje uma vida mais precária a nível de stress. Há sempre prazos a cumprir, há sempre dinheiro que não chega, há sempre o patrão que não está num bom dia e o pneu que furou no dia com mais tráfego do ano. Então absorvemos tudo de mau, e esquecemos que há o amo-te na mensagem inesperada, que há o sorriso de um estranho que não tinha que sorrir mas que te escolheu para essa dádiva, há o abraço apertado dos nossos e o Sol a nascer todos os dias para nos iluminar na nossa caminhada.
Eu tinha espaços vazios no coração. Buracos esculpidos por mãos onde um dia entrelacei os dedos, com amor e carinho. Durante muito tempo achei que uma vez destruído, não haveria conserto possível. Eu teria de carregar um coração incompleto, estragado, imperfeito. Muitas das vezes isso transbordava na minha maneira de ser e gostava um pouco menos de mim por isso. Hoje aprendi que quando se abre um buraco, este pode ser tapado de seguida, com um material melhor e mais resistente. Foi o que fiz. Hoje tenho o coração cheio. Tem cicatrizes, não há buraco ou ferida que não deixe marca, mas não é mais incompleto. Os sonhos e as pessoas cada vez mais presentes na minha vida deram-lhe uma nova vida e ele bate em uníssono com a felicidade que carrego na alma por todas as dádivas que me são dadas.
Não pinto mais a vida a preto e branco. Já sei usar todas as cores.
Lembro-me dele de chucha enfiada na boca e fralda de pano na mão. Procurava o meu colo, enroscava-se a mim e encostava a cabeça no meu ombro. Tinha sono. Não durava muito, minutos depois já me puxava a cara pelo queixo enquanto repetia até à exaustão: "pima, pima, pima." Queria atenção. Parava quando lhe arregalava os olhos e lhe berrava em jeito de brincadeira "Mas o que é?!". E ele ria. Sorriso malandro. Sorriso perdido.
Como nos gostávamos. Se eu estava, era comigo que ele queria estar. Recordo uma noite em que dormi em casa dele. De manhã acordei com beijos repenicados na cara, ele de t-shirt e sempre com a sua fralda de pano, a subir-me para a cama e a chamar "pima, pima, pima".
Abraçava-me. Abraçava-me muito. Como gostava de reviver esses abraços. Aqueles abraços de braços curtos, mas tão cheios de doçura que me enchiam a alma. Não, não sei explicar este amor inato em nós. Talvez tenha sido o sofrimento pelo qual sei que passou que me tenha feito apegar-me a ele desta forma tão forte e eterna, mas a doçura que tinha no rosto e no coração também contribuiu e muito.
Passou muitos dos seus dias na casa da avó. E a avó passeio a cima, passeio abaixo, corcunda pegando-lhe nos dois bracinhos, dias a fio nesta caminhada até ele caminhar. E o nosso menino caminhou. Na hora da sesta não queria dormir. Deitava-me com ele na cama da avó. Esbracejava, beliscava-me, desafiava-me, até que se rendia ao meu embalar. Cantando-lhe baixinho ao ouvido e fazendo-lhe festas nos olhos lindos, escuros como a noite, até eles se fecharem para mais uma viagem ao mundo dos sonhos.
Lembro-me de ficar a vê-lo dormir, em paz, sereno. Desejava-lhe o melhor e fazia o possível para que o melhor lhe acontecesse. Um Verão ficou cá em casa, para brincar com a minha irmã que tinha a mesma idade. À noite só dormiu quando me deitei ao pé dele e no dia seguinte, na hora de ir embora, escondeu-se deibaixo da cama. Não queria sair. Era com a prima que ele estava bem.
É sem qualquer tipo de pretensão que escrevo estas palavras, mas mentiria se dissesse que em relação à maneira como sempre foi tratado não me sinto mais e melhor que ninguém. Sinto e sei que fui. É talvez por isso que esta é uma ferida profunda, tão difícil de sarar. Não que sinta a falta dele agora, que já não o conheço, que já não o sei de cor. Quero-lhe bem, e rezo para que seja feliz, pois sei que foi o único que partiu por imposição, mas o que tenho mesmo são saudades do meu menino que me punha a sua pequena mão no queixo e me chamava "pima". Sei que não volta. As memórias têm de chegar.
"Depois da tempestade, a bonança." Ainda sinto na pele os pingos da chuva, a aragem que me corre o rosto ainda é fria e ainda ouço, porém longe, o imponente som dos trovões. Acho que o tempo acalma-se aos poucos, acalmando-me com ele. Têm sido momentos duros. Nada comparado com males maiores que sei que tantos sofrem agora, neste preciso segundo e a toda hora. Mas este é sofrimento que não se vê, não tem razão aparente, e é a maior das frustrações para quem gosta da solidão, não completa e total, mas dos meus momentos comigo. É preciso saber estar connosco para saber estar com os outros, sempre ouvi dizer.
Não é fácil entender, pior ainda explicar. É estar aprisionado dentro do corpo, tendo, no entanto, plena consciência, que para sair basta usar a chave que temos na mão. O que é difícil é saber usá-la. Devagarinho vou aprendendo, vou voltando a ser eu, mas melhor, acho. Sempre jurei a pés juntos e a todos os santinhos que nunca haveria de sofrer males da mente. Pela boca morre o peixe, e a minha mente cansou-se. Agora sei, que qualquer um pode chegar ao seu limite. Temos apenas limites diferentes e o copo de cada um transborda quando tiver de transbordar.
Ainda não estou bem, mas sinto-me a recuperar todos os dias. É curioso que nunca me tenha sentido infeliz ao longo deste processo, mas a cada dia sinto a minha felicidade a crescer e isso sabe-me a doce. Fazendo um balanço neste preciso momento, penso ser hoje uma pessoa melhor, pelo menos gosto-me mais assim. Acredito-me melhor, sei-me mais optimista e não me cabem mais projectos e sonhos na cabeça. Tudo o que é mau tem o seu lado bom. Nem sempre conseguimos compreender de imediato, talvez nunca o compreendamos, mas acredito que sim. Sei apenas que, embora ainda com um longo caminho pela frente, o que vejo adiante é brilhante, é completo e tem sabor a chocolate. E não há nada melhor que chocolate.
Dorme meu menino, dorme. O que é mau agora, amanhã já passou, quando abrires os olhos e sorrires o teu maior sorriso. Por isso, dorme meu amor, que o teu sono é velado por anjos e o dia nasce para a noite levar com ela tudo o que agora te condói. Fecha os olhos e descansa, embalado no amor por ti, inato em nós, e sonha sonhos bons que te façam sorrir a dormir. Pudesse eu e doeriam em mim as tuas dores, que acabam doendo à mesma, sabendo-te assim. Durmamos os dois então, que quando o Sol nascer as nossas dores foram embora com a Lua e as estrelas roubaram-te o choro para te devolver o sorriso.
Hoje li uma frase que dizia o seguinte: "Palavras bonitas não escondem pessoas feias." Senti o cérebro entrar em modo automático, como se algo tivesse sido accionado, e o seu rosto surgiu na minha mente, claro como água. Durante anos as palavras bonitas que dizia, fizeram com que a sua companhia fosse tão doce. Era culto, era simpático, lia Florbela e sabia de cor Vinicius. Tratava-me com jeito, como quem gosta. Sentou-me ao colo tantas vezes e era um colo que eu gostava de ter. A cabeça no ombro vezes sem conta, as conversas divertidas, às vezes sérias o suficiente para a idade, as piadas constantes, impulsionando a vontade de ter a sua pessoa comigo.
Nunca lhe chamei tio, sempre o tratei pelo nome. O resto dos primos achavam esquisito, mas eu habituei-me assim, e isso para mim não era sinal de afastamento, era a maior prova de proximidade, cumplicidade. Tratávamo-nos de igual para igual e eu gostava disso. Nunca se dirigiu a mim sem um sorriso, sem o braço à volta do ombro nem o beijo na testa. Lembro-me de ir mais cedo para o treino e o primo não estar em casa. Era ao trabalho dele que ia ter. Sentava-me e falava da escola, dos livros que lia e ele recomendava, escutava-me e sorria, sorria sempre.
Quando o sorriso deixou de aparecer, quando percebi que o beijo na testa e as conversas sobre livros não iam mais acontecer, chorei. Não é morte, mas é. A pessoa com quem eu cresci, de quem ansiava tantas vezes a companhia bondosa e que me aquecia o coração por saber que ia lá estar, não estava mais, não existia. Pior, nunca tinha existido e as palavras bonitas não o escondiam mais. E isso é, talvez, o mais próximo que estive do luto.
Hoje já não choro, emendo-me quando sinto raiva, porque sei bem que a raiva só nos corroi a nós próprios, mas ainda é um trabalho em progresso. Sinto apenas pena. Pena que pessoas feias tenham acesso à dádiva que são as palavras bonitas.
Se há coisa que me irrita é que irritem os meus. Não apenas os meus de sangue, mas aqueles que tomo de direito porque a vida assim enlaçou. Há pouco tempo, aqui em casa, lembraram-se de desempoeirar cassetes VHS, ligar o velho vídeo e mostrar-me num tom de "estás a ver?!" como eu sempre fui refilona e dona do meu nariz, conta a lenda que desde o berço.
No vídeo tinha uns dois ou três anos, o meu primo estava em Portugal como era hábito nas férias de Verão, e entretinha-se a jogar à bola com o meu melhor amigo. Não sei se impulsionada pela ameaça de que os dois me excluíssem e se dedicassem exclusivamente à sua recente amizade, lá apareci, em cuecas, descalça (ainda hoje adoro não sentir nada entre os pés e o chão frio) e com um papel e um lápis na mão. Com uma mão rabiscava o papel, com a outra usava o indicador, demasiadamente esticado, para quem não estava incomodada com alguma coisa. Não estou certa do que dizia, porque as palavras que saíam da minha boca ainda tinham o defeito da idade, mas a o tom autoritário que emanavam deixava adivinhar que eu não era pêra doce.
Acho que sou. Sei dos meus defeitos, que são tantos, senhores. Mas sei que quando sou precisa estou lá, até quando não sou, estou lá. Preocupo-me com os meus e hei-de fazê-lo até ao meu último suspiro. Só tenho de aprender a fazê-lo com moderação e decidir, acreditar, de uma vez por todas, que não tenho controlo absoluto sobre nada do que possa vir a acontecer a ninguém que me é chegado ao peito.
Tenho ar calmo, não parto um prato nem mato moscas. Se me pisarem os calos o ar calmo tende a desvanecer e um prato ou outro vai-se partindo pelo caminho. Mas experimentem pisar nem que seja o dedo mindinho aos que me pertencem. A menina do pé descalço e do indicador esticado e ameaçador vai reaparecer e aí sim, as moscas bem podem fugir.
Há muito que vinha dizendo, em tom de brincadeira, mas também de facadinha, que esta família precisava de reciclagem. Soube da notícia por acaso, mas esperei a confirmação. Quando chegou, o abraço de parabéns foi sentido com a alma e com o coração e as lágrimas de felicidade que escondi à pressa passaram de facto pelos meus olhos. Primeiro veio a expectativa do género, depois sabendo que um anjo vinha a caminho foi o caos geral. Ainda não era gente, ainda não tinha visto a luz do dia e já tinha tanto coração a bater descompassado por ele. Os dias eram contados ao segundo, até ao dia em que ele, por conta própria, sem ninguém esperar, decidiu chegar.
Chovia a potes e eu não tinha chapéu. Praguejei quando ouvi o telemóvel tocar dentro da mala, e deus sabe como é difícil encontrar até um elefante, na mala de uma mulher. Parei no meio da rua a barafustar sozinha e encharcada, de mala aberta à procura do telefone. Era a minha mãe. Lembro-me de berrar um "Estou" muito irritado, e ter ouvido do outro lado: "Nasceu." De repente, esqueci que chovia, esqueci que estava molhada até à alma e berrei um histérico "Nasceu?!". O resto do caminho, enquanto bombardeava a mãe com perguntas, fez-se também à chuva, mas o coração agora estava quente, quente, e o frio já não trespassava nem corpo, nem alma.
Foi um dos dias mais felizes da minha vida. Ficou-me na memória o cheiro da primeira vez que o peguei nos meus braços. Como era pequeno, a sua mão agarrando o meu dedo com os dedos todos, e ainda me sobrava tanto dedo para além do que ele pegava. Hoje, quando me apetece rir, procuro as fotografias dele de sorriso aberto mostrando os seus dois dentes e sou feliz. Não acredito em deus, não acredito em seres superiores que nos comandam como marionetas. Acredito apenas na vida que vai correndo, umas vezes pondo entraves e obstáculos, outras unindo-nos ainda mais, oferecendo bençãos do tamanho do Mundo. A nossa chama-se Gabriel.
De sete primos, somos nós as primeiras de três raparigas e três anos nos separam. No dia a seguir ao meu nascimento a primogénita da família não queria abandonar o hospital depois da hora destinada à visita: "Deixem-me ver a miúda, pá!", contam-me que gritava pelos corredores fora, com um livro da Anita na mão. Hoje, sem ilusões, sei que só queria estar perto da minha mãe, pois a prima nova ia-lhe tirar o lugar. Não tirou. Nenhum ser ocupa outro, nunca.
Não tenho memória de a termos tirado, mas adoro uma fotografia que tenho dela comigo ao colo, sentadas nos canteiros da avó, quase sem poder com ela própria. Que doce de recordação. Lembro-me de ir para casa dos tios, e a prima me fazer casas de bonecas com canetas de feltro para eu e o primo brincarmos. Lembro-me do seu vestido da "lambada" que invejei e chorei até a mãe me comprar um parecido e depois levarem-nos as duas à praia com os nossos fatos novos. No meu primeiro dia de escola, a prima, que já estava na 4ª classe, estava lá na mesma sala, e isso fez-me sentir grande como ela, como sempre quis ser. Ensinou-me a fazer ponto cruz e a jogar à macaca. Foi prima e irmã, como todos os primos devem ser, e não há nada a dizer em contrário.
Engraçado é que só tome consciência disto agora. À medida que o tempo vai passando, vamos perdendo pessoas, vamos vendo pessoas a dizerem adeus às suas pessoas. É aqui que eu paro e olho à volta. Sobrou quem quis e pôde ficar. Ela quis. Então sou feliz mais uma vez, porque é ela que importa, são os que permanecem sem pedir nada em troca, são os que respeitam e se preocupam e gostam, que devemos preservar. Aos que ficaram ofereci a parte do meu coração que os outros recusaram. Não que a prima já não tivesse a sua parte, acontece que a sua parte cresce todos os dias um bocadinho.
A vida "passa a vida" a ensinar-nos. Às vezes são lições duras, e as reguadas nas mãos deixam marcas para sempre. Tenho algumas, mas o assunto e a razão são sempre os mesmos. No fundo, tenho as minhas mágoas bem definidas, sei onde está e dói a ferida, só me falta saber o que fazer com ela.
Passo dias e dias sem pensar nelas. Depois existem as noites em que chegam em catadupa, invadindo os meus sonhos, e acordo com saudades e raiva e desespero e vontade de fazer e acontecer. Não faço nada. Foram poucas as vezes que chorei por saudade, muitas por raiva e revolta. Não gosto de falar no assunto, embora saiba que também é preciso. Não gosto de me sentir vulnerável perante pessoas que justiça houvesse, teriam a maior das angústias a afogar-lhes o peito, e voltariam atrás de joelhos sangrando na gravilha, pedindo perdão até a palavra se gastar em si mesma. Pondero às vezes que talvez perdoasse a um, os laços de sangue são tão irracionais, mas aos outros apenas deitaria pimenta nas feridas e os mandaria de volta pelo caminho que os trouxe, desta vez rastejando, se fosse possível. Mas não tenho ilusões.
As vezes que as lágrimas forçaram a saída (como sou orgulhosa) por saudade, foi saudade genuína de alguém que não volta porque assim lho impuseram. De alguém que podia ajudar tanto, queria ajudar tanto, e não posso. Sei que não tem nem nunca teve a atenção que deveria e merecia ter tido, e como o sinto injustiçado na imposição da minha ausência na sua vida. A consciência está tranquila, mas o coração às vezes pesa quando penso em que outros entraves a vida lhe colocou sem eu estar lá para lhe pôr o braço à volta do ombro.
Então a vida tira, tira muito, mas também dá. Com as facadas de uns redescobri o amor de outros que sempre lá estiveram e eu negligenciei. Esqueci que havia mais família, que havia mais amor, mais cumplicidade. E hoje, entre a escolha de estar triste ou feliz, escolho a felicidade de ainda ter os meus queridos primos (obrigada prima pelos outros dois maravilhosos que me deste, cada um à sua maneira, mas que são meus de igual forma), com o seu enorme coração que sei que me açambarca também, apesar do tempo que tantas vezes nos afasta.
Acho que aprendi que durante a nossa existência haverá sempre algum alfinete esquecido na camisa. O importante é sentir a picada, encontrá-lo e guardá-lo longe. Não para nos esquecermos dele, mas porque estando ausente de nós, não corremos o risco de nos magoarmos novamente. E é por isso que agora, e em jeito de experiência, vou fechar os alfinetes numa caixa, e rodear-me dos doces que a vida me deu.
Ao largo de si mesma vive a vida que a própria vida vive por ela. Está de corpo. A alma ficou lá atrás onde não teve forças para a vir trazendo consigo. Perdeu-se no tempo que deixou por viver e agora não se encontra mais no que lhe resta adiante. Sinto-a encostada à parede, escorregando lenta e, ao mesmo tempo, sofregamente em direcção ao chão. Tem pressa de lá chegar e permanecer. Deseja voltar a ser nada, para que o nada que vive acabe de vez, mas ao mesmo tempo sinto que quer ficar, para sentir o que não sentiu.
Há revolta em quem está à volta. Em quem ama e quer dar a mão. Não ajuda, diz ela. Tens que a aceitar de peito aberto, minha mãe. E reaprender o amor, para que aprendas também a verdade da mentira que a vida te contou.
Ouço as histórias que conta da enorme família que se reunia, das férias que passava com os tios e primos, dos verões passados sempre na praia, nunca sozinha. Vejo fotografias antigas e tenho pena que nunca tenha percebido o quão bonita sempre foi. Das coisas que me conta, poucas boas e muitas más, são estas que eu ouço e dou valor. Porque são doces, porque, apesar de nostálgicas, fazem-nos ter a certeza que vivemos momentos que valeram a pena e que nunca ninguém os poderá roubar de nós.
Espero que lute, espero que ouça quem a ama, rezo para que entenda que faz falta. A vida não é sempre feliz, mas estar vivo é a felicidade constante. É poder acordar todos os dias para novas possibilidades, é poder sentir o ar a entrar nos pulmões e ver os filhos a crescer. Viver pode trazer sofrimento, mas não tragamos sofrimento ao viver, porque assim, quando partirmos deste mundo, partimos vazios. "Vazia é o que eu sou." Enganas-te, outra vez, só estás vazia de ti. Encontra-te, minha mãe. Eu estarei sempre cá para te dar a mão e saltar contigo, quando os vazios forem demasiadamente grandes para os ultrapassares sozinha. És a única por quem o posso fazer, não tenho, nem nunca terei, mais nenhuma mãe.