"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
Olá meu querido, esta é a carta que nunca vais ler, as palavras que nunca chegarão a ti, porque já não existes. Deixaste de existir há mais de oito anos e o rapaz que vi hoje não és mais tu, não é quem foi o meu menino. Não o posso recuperar, apenas guardar as boas memórias que tenho dele, de ti, que não és tu.
Sabes, chorei ao ver quem és agora. Não esperava, não te sabia assim. Sempre torci para que o sofrimento atroz que quem comandava, pessimamente, o teu destino, te fez passar, te fosse recompensado mais tarde, com uma vida serena, normal, feliz. Não és pois não? Tu que não conheço, mas que percebi infeliz, pelo olhar negro, que, apesar de tudo, permanece igual ao que me olhava sempre com amor e carinho.
Doeu, rasgou por dentro, ainda sangra a ferida que já estava a sarar, quando penso no teu "eu" que vi hoje. Não era assim que te queria, e não consigo deixar de pensar que não te foram dadas as oportunidades que merecias ter tido, que nunca deverias ter sido afastado de mim, pois serias hoje diferente e melhor. Talvez seja tolice ou presunção, mas é isso que o coração me diz e ele raramente me falha.
Não tenho o poder de desfazer o tempo como se fosse um pedaço de lã tricotada, voltando atrás e emendando o que está mal. No fundo, meu amor, não poderia emendar nada, as agulhas nunca estiveram nas minhas mãos e é isso, apenas isso, que me deixa encostar a cabeça na almofada com a consciência tranquila de que te amei mesmo quando não me deixaram que o fizesse, mesmo quando te impediram bruscamente que o fizesses de volta.
Cada vez que via um menino moreno na rua pela mão de alguém confundia-o contigo, depois lembrava-me que não era possível, que já não existias assim. Hoje depois de te ver crescido, por entre lágrimas, senti que fechei um ciclo. A imagem que se gravou na minha mente é pior do que a desilusão que se seguia a ver todos os meninos que pensava seres tu. Contudo, agora a mente já sabe o que o coração ainda não tinha percebido e posso, finalmente, deixar-te partir.
Talvez um dia o meu menino acorde desse sono induzido e volte para me dar um abraço e um beijo dos nossos, sempre e só nossos. Ou talvez nunca mais as nossas vidas se cruzem e será sempre em mim o meu eterno e amado menino. Qualquer das formas, seja qual for o caminho futuro, estou aqui, no mesmo sítio onde te obrigaram a deixar-me, onde prostrei por te perder, com o mesmo amor que sempre tive para dar. Estarei aqui, mas agora seguindo sem esta ponta solta que me fazia tropeçar. Estarei aqui, mas aprendi, finalmente, que tu não podes estar. Tu, o meu querido menino, não és mais o que foste, foi te roubada essa possibildade. E se um dia me ouvires e te importares, então descansa, meu querido, o amor que nos uniu estará sempre guardado no meu peito.
Sinto que cada vez que me tiram quinhentos quilos de cima, logo a seguir me arremessam uma tonelada. E eu vou arcando, vou levando e arrastando. No entanto pergunto-me, até quando? Todos os dias quando o Sol bate na minha cara, respiro fundo e peço para ser um bom dia. Nunca o é por completo. Sim, eu sei. A felicidade não é completa e constante, mas a agonia também não deveria ser.
Estou tão feliz e tão triste ao mesmo tempo. Não se trata de bipolaridade emocional, trata-se de uma teimosa bipolaridade situacional. Há sempre o espinho na rosa do meu dia que o ensanguenta e faz doer, embora o seu cheiro seja tão maravilhoso. Há sempre o tropeção no buraco matreiro, que me faz cair e ferir, embora a rua seja mais bonita que alguma vez vi. Existe sempre, mas sempre, a picada, fina mas massacrante, da agulha com que teço o meu delicioso futuro.
O Sol brilha todos os dias, e todos os dias chovem pedras. Luto para fugir por entre os buracos desta chuva, esquivo-me como a vida me ensionou, e não posso deixar que nenhuma me acerte em cheio, porque sou a primeira peça do dominó. Sei que se cair, cairão muitas outras e o caos instalar-se-á sem que uma nesga se continue a abrir para esta felicidade que me preenche também.
Assim, vou caminhando, para onde, não sei. Esperança tenho que baste, crença também, embora ambas, ocasionalmente abaladas por esta flecha que a vida tem, sempre e constantemente apontada à maçã que pousa sobre a minha cabeça. Por agora precisava apenas de um lugar seguro para me sentar, rescostar-me, dormir, sabendo que por uns momentos, por mais breves que sejam, estará tudo bem, e que posso, finalmente, baixar a minha guarda.
Não preciso de uma data, um número específico no calendário para me lembrar do amor e carinho que tenho pelos meus avós. A vida ainda não me tirou nenhum, mas no fundo deu-me apenas dois. Escolheu os melhores. Não é com crueldade ou rancor que o constacto, é com verdade. E quem a confessa não merece castigo.
Vou-me apercebendo hoje das fases que a nossa relação avós/neta tem vindo a passar e sorrio com uma réstia de angústia. Nasci com eles e guardo com carinho as fotos do meu primeiro banho dado pela avó. Vivi com os meus pais na sua casa até aos seis anos e tenho gravado na memória a noite em que fomos embora para outra casa, só os três, sem os avós. Era pequena, não tinha noção de tudo, mas já sabia que aquilo que sentia no peito era tristeza por deixá-los a eles. Em boa verdade, nunca os deixei, e foi lá que acabei por crescer.
Lembro-me de jogar à bola com os meus primos, no quintal, até ouvirmos o avô a chegar na sua Vespa. Aí apressávamo-nos a esconder a bola e púnhamos a cara de anjos que nos era possível. O avô não era mau, não batia, mas bastava um olhar para termos respeito. E tínhamos tanto de respeito como de admiração. Em todos os Setembros era tradição irmos ver o avô chegar a nado ao cais de Alhandra na prova Batista Pereira. Tirava sempre, orguhoso, uma foto à chegada com os netos todos, e ainda hoje sinto, como se me estivesse a tocar agora, a sua pele molhada, gelada, envolvendo-me o braço no ombro e fazendo pose para a fotografia.
A avó sempre foi diferente. Enquanto o avô era fruto de uma vida inteira de trabalho, que o tornou duro na casca mas mole de coração, a avó era a nossa amiga, companheira de brincadeiras, cúmplice de asneiras. Nos tempos em que brincar na rua ainda era normal, a avó levava-nos a fazer piqueniques, a apanhar figos da figueira perto da casa e a apanhar a espiga em Abril. Palmilhávamos campo, corríamos até perdermos o fôlego e ela sempre com paciência de santa, fazendo tudo, mas tudo o que pedíamos. Agora que penso, a verdade é que nunca ouvi a minha avó me recusar nada. Quando a minha mãe me perguntava "gostas mais de mim ou da avó?" eu não sabia responder de outra maneira senão "oh mãe, é igual, pronto." E era. É.
Hoje são eles que contam comigo. Não para o mesmo que eu contei, mas para os apoiar na idade que avança tão rápida e tão impiedosa. Como me dói vê-los assim. Como me rasga por dentro a idéia de que um dia não lhes vou poder bater à porta, levantar a tampa do correio e gritar "sou eu 'vó!" e logo de seguida receber um abraço "és tu, filha". E é por ter essa noção, esse perfeito entendimento de que quase tudo na vida é finito, que lhes vou continuar a bater à porta muitas vezes, chamando por eles, dando-lhes o meu beijo e o meu abraço. Um dia, quando do outro lado o silêncio for resposta, sei que vou chorar, mas logo sorrirei. Nem todos têm o privilégio de conviver com anjos na terra.
Adormeço sempre com o pensamento e a esperança que o dia amanhã será melhor. Ontem dormi tranquila, tentando não me preocupar com o inevitável e esquecer o que já foi. Hoje amanheci com um rabo preto a abanar na madeira da cama e beijos em jeito de lambidelas. Todas as manhãs é assim, parece que não me vê há tantos anos quantos uma longa vida pode ter. Pelo menos os animais têm a pureza de amar incondicionalmente, ainda que no dia anterior lhe tivesse ralhado e apontado o chinelo, mais vezes do que durante os seus quase seis anos de vida.
Estava serena e alegre, achei que o dia ia ser calmo. Mais uma vez falhei a previsão e a esperança saiu-me frustrada. Aqui estou eu, novamente exausta, mas agradecida por ainda ter quem me abrace e me atenue o choro quando a situação vai para além daquilo que consigo suportar. Todas as dores são menores se não forem sentidas na solidão, e hoje senti-me tudo, menos sozinha. Estou grata por isso.
A vida tem teimado em me dar dias maus, eu tenho teimado em aguentá-los a todos. Há alternativa? Enfiar a cabeça na areia nunca me apelou, e mesmo que rebente em lágrimas de angústia, sorrio logo a seguir, rio, canto, ouço música enquanto tomo um longo banho de agua fria e sorrio mais um pouco. Tenho um futuro que me espera a cada minuto e uma estrada maravilhosa para percorrer. A vida é teimosa, mas eu também sou. Sempre me disseram que ninguém teima sozinho.
Chorava compulsivamente sem saber porquê. Não eram suas aquelas lágrimas, não podiam ser, não havia motivo. O corpo encolhido tremia de frio, transpirava calor. A cabeça num turbilhão de porquês sem resposta. As mãos geladas o coração apertado, e o motivo não existia. Era como se o peso do Mundo lhe tivesse caído na cabeça e estivesse agora a espalhar-se por si abaixo, sem pedir licença nem dar explicações. Sentiu que não tomava mais conta de si própria, que era agora o seu próprio corpo que comandava, que afligia, que apertava o peito a seu bel-prazer. Ele deu-lhe as mãos que acalmaram as dela, que lha afagaram os cabelos e a apertaram até parar de tremer. Era o início de uma longa batalha contra si própria.
Quando o copo transbordou, fez o que sempre se habituou desde pequena, procurou respostas. Estavam dentro dela. Só podemos ignorar o passado se de facto o passado ficou lá atrás, resolvido e arrumado. No meio das arrumações que fez, pôs algumas coisas debaixo do tapete, porque a pressa de seguir em frente era demasiadamente grande para ser meticulosa. Então, escorregou no tapete, tal foi a tralha que acumulou. Levanta-se devagarinho, apanhando e arrumando tudo o que a preguiça ou o medo, fizeram na altura com que deixasse coisas onde era mais conveniente, longe da vista.
Nunca gostou de arrumações, encaixotar ou deitar fora, mas neste caso começa a encarar tudo isso quase como uma benção. Ainda sabe chorar, mas aprendeu a sorrir e a ter esperança, apercebendo-se que os sorrisos de volta são remédio para a alma. E não há nada melhor que encarar o Mundo e a Vida com um sorriso nos lábios, esperando e acreditando sempre num amanhecer melhor que o anterior.
Por vezes sinto que basta, que não tenho mais forças, que não consigo mais. Depois recebo a notícia de uma morte inesperada e respiro fundo, engulo o choro, dou com calma a notícia e amparo nos braços quem sofre mais que eu. O telefone toca com um pedido de ajuda desesperado, não hesito, não penso que tenho medo, simplesmente vou, ajudo, está feito. O carro pára no meio da rua, na hora mais movimentada do dia, e eu mantenho a calma e penso nas soluções. Soluciono. O telefone toca novamente e as notícias sobre a avó não são boas. Não faz mal, a avó vai ficar bem, é só acreditar. A mana chama aflita por mim: a mãe desmaiou novamente, e eu não corro assustada como antes, levo o meu tempo e a minha serenidade. Agarro-a com as forças que tenho e chamo-a devagarinho até vir a si. Acorda e chora. Dou-lhe o meu ombro. É seu. A mana chora mais tarde. Sento-me a sussurar-lhe ao ouvido "diz meu amor, o que te magoa?" Não quero ficar sozinha, sem ti. Nunca. O meu coração é seu desde que veio ao mundo, e nada vai mudar isso. Aqui estarei, junto dela, sempre.
E então, hoje a mãe não me reconheceu pela quinta vez em pouco tempo. Não se reconheceu a ela, não reconheceu nada. Na primeira vez o medo tomou conta de mim, hoje foi a calma que me preencheu. Sentei-me como uma desconhecida, dei-lhe a mão e contei-lhe a história da vida dela, sempre com um olhar desconfiado me fitando e atirando, de vez em quando, um "não me chames mãe, não tenho filhos." Devagar, pelos pequenos pormenores e fotografias voltou a si e dorme neste momento, espero que serena e com a cabeça vazia do que a atormenta.
Reconheço que sou forte. Sou forte, e sei que a vida é isto. Momentos bons no meio de momentos maus, por entre os quais venho aprendendo a sorrir e a aceitar. Mas hoje, só agora, neste instante, quero ser fraca só um bocadinho e ceder ao sono de exaustão que toma conta de mim. Voltarei a sorrir e a ser forte amanhã. Prometo.
Gostava de saber mais dele, de conhecer mais dele, de lhe sentir o cheiro e ouvir a voz. Essa é uma das coisas que me causam mais tristeza, não lhe saber a voz. Sei que me pegou, que me tocou, que lhe foi dado tempo de me conhecer, ainda que tão pouco. Talvez por isso tenha tanta curiosidade em saber coisas dele, histórias dele, sentir que, mesmo assim, ainda o conheci também um bocadinho. Não sou de falar da morte, não gosto que me venham falar dela. Vida é vida e não existe benção maior. Mas em relação a ele existe uma sensação estranha de não vida, de não morte. Para mim nunca viveu, mas também nunca morreu.
Às vezes estranho-me a mim própria quando dou por mim a ter sentimentos tão fortes por uma pessoa que na verdade não sei quem foi. Inclino-me sobre estes pensamentos, pondero se a minha cumplicidade e amor incondicional para com o meu pai não me fará querer viver as dores dele, tirando-lhe um fardo que sei não ser passível de ser retirado. Analiso na medida do possível, mas nunca tinha conseguido chegar, pelo menos perto, de perceber porquê, até que uma pergunta da minha avó, há coisa de cinco ou seis dias atrás, acendeu uma luz na minha mente e que em mim desatou tantos nós: "Lembraste, filha, quando ias com uma mão agarrada a avó e com a outra segurando flores para dares ao tio?" Tinha uns quatro anos e lembro-me como se fosse hoje. O caminho que me recordo é por certo hoje menor que na altura, mas lembro-me de percorrer uma grande rua de terra batida até chegar a ele. Estava do meu lado esquerdo e o Sol iluminava-o de frente. Olhava a fotografia, assistia o ritual das flores, via a avó despedir-se dele e seguia novamente, de volta para casa, pela mão dela. Era uma coisa natural para mim, assim me ensinaram, e acredito que seja por isso que hoje sinto que ainda tenho o meu tio, muito embora só o tivesse vivido em histórias, fotografias e visitas ao local onde permanecia os restos do que um dia foi.
Fui ensinada que o meu tio era passado, mas foi sempre e durante muito tempo o meu presente. Era o meu tio, não podia vê-lo, não era palpável, era a estrela no céu. Mas era o meu tio, o pai do meu primo que lhe herdou o semblante e ir visitá-lo era natural, ter carinho por ele era quase inato. Nessa altura da minha pequenez, transmitiram-me valores e sentimentos que permanecem hoje. E é a única razão que encontro para gostar tanto de uma pessoa que já não o é há vinte e seis anos. Quando algo me aflige, falo com ele. Quando assim o entendo, visito-o como fazia com a avó, e deixo-lhe uma flor e uma palavra. Lembro-me dele tanta vez e acredito, ainda que tão descrente em tudo o que isto significaria, que ele me ouve, que olha por nós e que permanece. Nem que seja na forma dos nossos corações.
Amizade é palavra forte, sentimento raro. A mesquinhez do mundo que nos ensina não deixa margem para existirem muitas, verdadeiras, sólidas. Sempre ouvi dizer que um amigo é família que escolhemos. Faz sentido se à família conotarmos o amor incondicional, o dar a mão sem fazer perguntas e o levantar sem, muitas das vezes, podermos com o peso do nosso próprio corpo. Tenho família que nunca fará isso por mim. Tenho amigos que já o fizeram.
Nunca fui pessoa de muitas amizades. Na escola, ainda pequena, a minha timidez não deixava que os amigos, tão comuns naquelas idades em que não se sabe nada e tudo é puro, fossem meus em maioria ou grande quantidade. Cresci achando que sabia escolhê-los. Sabia, sem pesar margem de erro, que daquele não podia esperar grande coisa, mas do outro, ah! esse sim, não me desiludiria.
Depois a vida acontece, os outros acontecem em ti, tudo te amadurece por dentro e acordas da ilusão que a aparência é totalmente reveladora, e que segundas oportunidades não existem. Como errei nas análises que fiz, durante a minha ainda curta experiência de vida. Penso que todos passamos pelo mesmo, uns mais do que outros. Falhei nas amizades que achei eternas, acertei ao lado no que toca a família que, sei agora, só o é por coincidência de sangue e circunstâncias da vida.
Não tenho muitos amigos. Amigos com maiúscula, mas conservo-os a todos, e reservo-lhes sempre lugar na mente e no coração. Por vezes a vida afasta-nos, o tempo não nos permite estar perto, mas quando nos juntamos passado um mês ou um ano e a cumplicidade é espontânea, as gargalhadas soam ao mesmo de sempre e o abraço tem a força igual a antigamente, então é hora de agarrar, apertar, não largar mais. Temos ali o amigo da maiúscula.
É como digo, não tenho muitos amigos, mas os que tenho valem por toda aquela família, todos aqueles hipotéticos amigos, que não tenho, nunca tive, nem quero mais.
Levantou-se devagarinho, apoiando-se em cada canto, com a dificuldade que todas as dores lhe causavam. Cada dor que lhe doía fazia-a lembrar que a vida que viveu nunca foi desprovida de sofrimento. Sofreu a cada hora que respirou e nunca soube o significado da palavra "feliz" e isso só lhe causava mais dores, não físicas mas na alma, que sempre duvidou ter tido uma inteira.
Cresceu sem mãe, que a doença levou ainda tinha quatro anos. Criada por uma madrasta que fazia jus ao nome. Não sabendo ler nem escrever, cedo aprendeu que tinha que trabalhar para sobreviver, servindo em casas de "senhoras" e por ali vivendo, sozinha, desamparada, infeliz. Tinha irmãos, mas não tinha. Tinha família mas de que serve uma família que não ampara e dá a mão?
Casou esperando já o primeiro filho, num casamento em parte indesejado, mas forçado pelas circunstâncias da época, onde uma senhora não podia ser mãe solteira, e o homem tinha que assumir as suas responsabilidades assinando um documento que unia as duas vidas, supostamente, para sempre, havendo ou não amor. Não acredito que houvesse e até nisso foi infeliz.
Com poucos anos de diferença nasceu outro filho. Criou-os o melhor que soube, deu carinho sem nunca ter aprendido a recebê-lo, provando que nem sempre somos fruto da árvore que nos gerou ou de quem nos apanhou do chão e levou. Vivia um casamento precário, uma vida dura onde quem ditava as regras era o homem que punha a comida na mesa, ainda que fosse ela que a preparava, que o servia e depois lhe lavasse os pratos.
Teve netos e isso levou-a perto do lugar feliz que todo o ser humano merece permanecer, nem que seja por alguns momentos da sua vida. Mas em pouco tempo outro golpe duro do destino levou-lhe um filho e deixou de acreditar na felicidade como realidade possível, mas sim como mera utopia, alcançada por seres superiores, não por ela.
O resto da vida, sobreviveu. Sobreviveu ao homem que casou sem amor e que, embora convencido do contrário, contribuiu sempre e constantemente para a degradação da sua saúde física e mental. Hoje não é mais que um corpo dorido, de olhos tristes que não deixam dúvida sobre o sofrimento pesado que carrega em si.
Levanta-se devagarinho, todos os dias, agarrando-se aqui e ali. No corpo traz as dores de sempre, na alma também. E assim vai vivendo, até o seu coração ser piedoso e decidir que basta. Então os seus olhos tristes se fecharão, as dores não serão mais sentidas nem sofridas e aí, muito embora não acredite na continuação da alma depois do corpo, quem sabe, seja finalmente feliz. Assim o espero, de coração.
Quando eu morrer tudo permanecerá igual. A chuva cairá quando tiver de cair, o vento outonal continuará a soprar as folhas secas das árvores, espalhando-as pelo chão e a manhã nascerá todos os dias, assim como também anoitecerá quando for hora de ser noite. Os dias não serão mais longos, as noites mais curtas. Não existirão menos ou mais estrelas no céu por isso, e as flores de cada jardim continuarão a crescer ao seu ritmo, ou a morrer ao serem cortadas.
Quando eu morrer, vou ser apenas uma peça deste nosso puzzle que desaparecerá, mas a vida de quem vive continuará. Os aviões não ficarão em terra, os automóveis não deixarão de cruzar cidades, os barcos navegarão cada oceano e as pessoas não pararão de andar e correr pelo Mundo. O mar continuará a ondular a sua água salgada, que baterá compassada no areal de cada praia e as nuvens vão continuar a cobrir o céu de branco, quando assim for necessário.
Quando eu morrer, só quem me conhecia sentirá a minha falta e pensará que o mundo está diferente. Não estará. E quando todas elas também partirem, então é como se não tivesse existido nunca e a minha história terá sido só mais uma entre tantos milhões de outras que, porventura, mereciam ter sido contadas.
Então é por isso que escrevo. Quando eu morrer o mundo ficará igual, sei disso sem ilusões nem mágoa no peito, mas escrevendo não partirei por completo, e parte de mim viverá para sempre nos olhos de quem me quiser ler.