"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
Hoje numa fotografia tirada às cavalitas do pai, lembrei-me da frequência com que isso acontecia. Lembro-me como se fosse agora, quando o meu pai me pegava sem esforço, me colocava aos ombros, amparando-me com as mãos e me passeava, pela casa, pela rua. Como isso me acalmava quando estava nervosa ou doente, enquanto a mãe me dava água aos bocadinhos, como isso me deixava alegre quando queria apenas andar às cavalitas dele.
Olhando para trás não sei onde se pôs o tempo que passou tão rápido. Rápido demais. Ontem era criança, hoje ainda não aprendi por completo que não o posso ser. Recuso-me muitas das vezes a aceitá-lo. A minha criança foi feliz, porquê deixá-la morrer?
Foi como se tivesse fechado os olhos, depois de olhar tudo lá de baixo, pequena no meu tamanho, depois de ver a minha irmã nascer, como mais um pedaço de mim, e os tivesse aberto logo de seguida, tendo a paisagem mudado por completo. O meu pai já tem cabelos grisalhos e o seu bigode é apenas uma réstia do que em tempos foi, a minha irmã cresceu e ultrapassa-me no tamanho e em tantas outras coisas que me orgulham, e a minha mãe que agora precisa de mim como em tempos precisei dela.
Não magoa lembrar, não magoa perceber que já não é. É nostalgia pura que certos momentos nos obrigam a sentir. A criança feliz que fui, preservo-a no meu coração, não morrerá nunca, e incutírei-la à minha irmã, aos meus filhos, aos meus netos. Sim, por essa altura ainda serei criança, pois sei que nunca desaprenderei a sonhar.
É como se fosse desde sempre. Os planos entre beijos, os receios e os anseios. Percorremos todos os caminhos, esquivamos todas as investidas, juntos. Mão na mão, como uma só. A novidade da nossa expectativa brilha no olhar, sente-se no palpitar dos nossos corações e é tão bom. São novos desafios, tempos mais difíceis. Sim. Mas mais felizes, também.
Por vezes é necessário um tornado para destruir tudo o que se construiu. Depois temos duas opções, deitar os destroços no lixo ou aproveitar as estruturas para construir algo mais forte. Quando nos decidimos pela segunda, penso que não tínhamos a noção de que o rumo das nossas vidas não seria mais o mesmo, que não seríamos mais os mesmos, porque seríamos melhores, seríamos um só.
É como se fosse desde sempre, mas o peito aperta quando a distância se torna grande, a segurança da presença é constante e reconfortante, a expectativa num futuro planeado a dois é para lá do que as palavras possam transmitir. Sempre achei que nunca encontraria ninguém que me completasse, que me fizesse sentir amada como eu a amasse. Encontrei, e consigo ter a firmeza apaziguante de o dizer sem réstia de dúvida, na cabeça e no coração.
É como se fosse desde sempre, e o frio que dá na barriga antes do beijo já rotineiro sabe a amor, a amizade, a união. É como se fosse desde sempre. Espero que para sempre.
Tenho alguma dificuldade em tomar decisões. Sei, de acordo com as minhas crenças, aquilo que está certo e que está errado, mas detesto dizer que é assim ou não é. Aprendi que a vida é mesmo isso, e tomar decisões significa estar consciente de tudo de bom e de mau que elas podem trazer depois.
Há muito que tomei a decisão de me calar, de não tomar iniciativa, de não procurar quem deixou de nos procurar a nós. Lembro-me das amizades que perdemos pela vida fora, umas porque teve de ser, outras porque fomos preguiçosos demais para as alimentar, porque o café naquele dia não dava jeito, ou a mensagem dava demasiado trabalho a ser respondida. Somos negligentes em muita coisa, coerentes noutras.
Penso que sempre fui coerente no que toca à minha família. Sim, a ti primo, só a ti. Tenho na memória a última vez que vi o meu primo, meu irmão. Despedimo-nos com um "boas férias, depois diz qualquer coisa." Não disse mais. Fizeram-se à estrada sem olhar para trás, sem deixar rasto do amor, que durante dezanove anos julguei existir entre todos nós. "Não lhes fizemos nada.", repeti tanta vez, a chorar. Não tínhamos feito nada, de facto, mas o livre arbítrio tem tanto de bom, como de mau, e eles escolheram viver o resto da vida sem as nossas vidas. Lembro-me de na altura ter tido um sonho horrível onde num caixão o meu primo se contorcia, e eu afligida sem lhe poder tocar, porque ele estava morto, ainda que vivo. No fundo era isso, morreu na minha vida, ainda que a dele, felizmente, continuasse.
A revolta que ainda tenho dentro de mim faz-me tantas vezes dizer coisas que não sei se sinto. "Nunca vou perdoar", "Não me faz falta", "É como se não tivesse existido." Minto, tantas vezes quantas as digo. Muitas vezes me pergunto se deveria dar o corpo ao manifesto, questionar oito anos de completo e total desprezo sobre todas as nossas vidas. E depois digo a mim mesma, para quê? Para te humilhares? Para te mostrares mais pequena que eles? Será? Será que não me mostraria maior, ainda que a única resposta que tivesse fosse um virar de costas? Não sei. Não sei, de todo.
À medida que o tempo vai passando vou fazendo o meu luto com tudo o que se passou. Despedir-me para sempre de alguém que vive e que no fundo ainda amo é dos piores sentimentos do mundo. Dizem existir uma linha muitíssimo ténue entre o amor e o ódio, estou no meio, a pisá-la com os dois pés. Desprezo e odeio o acto, amo, inatamente, a pessoa que tive. É isto, claro como água.
Nunca consegui ter leveza de espírito para me afastar da situação e analisá-la. Sinto que agora tenho, e que pela primeira vez consigo expor, abertamente, exactamente aquilo que me vai na alma. É mesmo assim, tenho saudades, porque os momentos foram bons, sinto amor no passado, porque o passado foi repleto dele, trago no peito aquele que amei como irmão, embora carregue também com ele, a mágoa de me ter abandonado, logo a mim, que fui esculpida do mesmo barro, embalada no mesmo abraço, deitada no mesmo berço.
Um dia, um de nós não existirá mais, e na mente do outro ficará sempre a dúvida em forma de angústia. "Porque é que eu não procurei?" Penso que aí a dor será maior do que a do eventual orgulho ferido por dar o primeiro passo. Falta-me a coragem. Fica-me a saudade. A bem ou a mal, perceberei um dia qual é, ou teria sido, o caminho a seguir.
Sentou-se na areia a olhar o mar. Sempre o respeitou mas nunca o temeu. Durante toda a sua vida o seu rosto sorrira sem vontade, como se tivesse petrificado na posição que mais agradava ao olhar alheio. Por dentro, não existiam risos, nem sorrisos, nem alegrias, mesmo quando elas aconteciam, efectivamente. Não sabia explicar porquê. Sabia que era assim. Nasceu com ela, morreria com ela, talvez. Era triste constantemente, mesmo quando era feliz e não sabia.
Talvez fosse suposto ser assim. Talvez hajam seres que nascem para nunca aprenderem a felicidade das pequenas coisas, a alegria das pequenas conquistas. Talvez ela fosse uma delas. Não precisamos atravessar o oceano a nado para sermos heróis. Por vezes, o simples facto de nos erguermos de manhã faz de nós a pessoa mais forte do Mundo. É possível que tivesse essa consciência, apenas não tinha encontrado forças para acreditar no que estava à frente do seu nariz. Que era o amparo dos outros que a amparavam, e que sem ela tudo desmoronava como um castelo de cartas soprado pelo vento.
No fundo, bem lá no fundo, queria acreditar na necessidade dos outros nela, mas ao de cima era como se o diabo lhe soprasse constantemente ao ouvido coisas más, que a empurrasse para rumos incertos, que a tentasse enlouquecer com sussurros mentirosos e cruéis. Então deixava-se levar, caindo em vez de levitar, escorregando em vez de se erguer e dar o murro na mesa. Não tinha forças. Não as tem nela, mas precisa aprender e aceitar que tem tantas à sua volta, fazendo papel de grua, tentanto levantar um corpo morto, uma alma que acredita perdida.
Observo-a de longe, sentada na areia a olhar o mar. Estou ali, sempre estarei, esperando, de coração nas mãos, que ela nunca decida mergulhá-lo para sempre.
Lembra-se de rodopiar ao som da música na sua cabeça. Na mão uma flor, nos pés apenas o chão. Era livre, feliz, espontânea como uma criança deveria sempre ser. Fechava os olhos e cantava palavras indecifráveis que inventava ao sabor da sua fértil imaginação. Criava mundos só seus, onde tristezas não abriam portas e a alegria com que os preenchia transbordava para lá do que imaginava, ignorando todos os olhares e risos que desencadeava. No fundo, até apreciava, sem ainda saber que alegria gera alegria, começava a aperceber-se que, estando feliz, a felicidade se espalhava à sua volta, como se o vento a soprasse em todas as direcções.
Ainda tem nas narinas, o cheiro dos canteiros minados de flores e de cores. O cheiro da terra molhada. Como gostava de as regar e vê-las crescer como ela crescia, também, por dentro e por fora. Quantas e quantas vezes não as cheirava, espreitava, compunha com a sua pequena enxada, e voltava a cheirar. Vivia rodeada de flores e de amores e era feliz.
Hoje as flores já não estão, e quando pisa o mesmo chão já não o sente nos pés. Porém o sorriso mantém-se e poderia rodopiar com a mesma alegria de criança, como se fosse antigamente. As flores já não estão, já não são, mas os seus amores permanecem. É feliz. Quem precisa de flores quando tem os seus amores?
Vê e revê fotografias antigas no chão do seu quarto. Caras que um dia foram familiares, momentos congelados e felizes para lá do papel. Cada uma conta uma história e vai lembrando todas, pouco a pouco. Imagens antigas, imagens muito antigas, imagens recentes. Tantas caras que já não são, outras que não se querem dar a ser.
Recorda com saudade cada pedaço de papel que escolhe aleatoriamente. A sua vida cabe numa gaveta. Todas as memórias de tempos passados estão ali, mesmo aqueles que não sabia terem existido, estão ali. É um sabor agridoce aquele que lhe sobe do peito à boca. Relembrar quem foi e quem eram os seus. Perceber que já não é como aquela que lhe retribui o olhar de dentro de um dos álbuns que segura nas mãos, e que já não tem consigo tanta gente, que afinal está ali, tão perto, tão longe.
É saudade que sente. Mentiria se dissesse que não. Das pessoas, mas principalmente, dos momentos que lhes foram concedidos entre todos. Felizes. Plenos. Irrecuperáveis uns por força humana outros pelo destino que a vida impõe. É saudade misturada com mágoa, que se mistura com uma enorme nostalgia e que a faz guardar tudo na gaveta e rodar a chave até que esqueça o bem e o mal que lhe faz recordar, e a abra novamente para mais uma viagem pela sua vida que foi.
Um dia leu num poema o seguinte: "Carrego o teu coração. Carrego-o no meu coração." E isso resume tudo. Tem a vida mais vazia de presenças físicas e constantes, no entanto, no seu coração traz todos os corações daqueles que partiram, daqueles que quiseram partir. Não lhe pesa no peito, pelo contrário, enche-lhe a alma.
Lembra-se de se encolher no canto do seu quarto, tapada pelas cortinas, mãos à volta das pernas e queixo nos joelhos. Quando o seu mundo desabava aquele era o seu refúgio. Criava um outro mundo, onde não ouvia, não sentia e nada a fazia chorar. Era como uma barricada improvisada, ao jeito de cada ataque.
Naquela altura fechava os olhos e balançava o seu corpo como se se embalasse a si mesma. Imaginava-se a adormecer num sítio calmo, sem gritos, sem tristeza, sem dor. Ali ficava, até tudo passar. No fim, quando imperava o silêncio, desenlaçava devagar o corpo já dormente, espreitava por entre uma frecha da cortina verde, e saía lentamente do seu esconderijo, sem que ninguém desse por ela. Aí, enroscava-se na cama e tentava adormecer.
Adormecia convencida que o seu esconderijo a protegia de tudo, mas, na verdade, quando entrava no mundo dos sonhos, tudo o que ele camuflou, estava lá, para relembrá-la de que não bastava se esconder, tapar os ouvidos e esperar que a tempestade passasse. Ela passaria na mesma, e se não a enfrentasse nunca se saberia secar dos pingos da chuva.
Aprendeu isso muito nova, e daí em diante, compreendeu que criar barreiras defensivas não é cobardia, enfiar a cabeça na areia e fingir que nada se passa isso, sim. Lutou constantemente contra a ideia de que é impossível ser feliz num cenário de aparente infelicidade, e por entre muitas lágrimas aprendeu a sorrir. A sorrir, quando estava triste, a sorrir quando estava feliz. Sorrisos geravam sorrisos e isso bastava-lhe. A vida que corresse como tivesse que correr, ela lá estaria, a sorrir com ou sem vontade, mas nunca fazendo o jeito ao destino tantas vezes ingrato.
Hoje ainda fecha a porta do quarto para se isolar, não escondida num canto, rezando para que ninguém dê por ela, mas para chorar, porque limpa a alma, respirar fundo porque alivia, fechar os olhos para ver além daquilo que os seus olhos vêem, e encontrar a paz que necessita para ser feliz, mesmo enfrentando a maior tempestade que alguma vez alguém enfrentou. Quando reabre a porta e os olhos, vai de bem, com ela e com a vida. Ser genuína no sentir, de forma a encontrar a clareza para ultrapassar todos os obstáculos é a única forma que sabe para ser genuinamente feliz. Assim o é, apesar de tudo.
Ainda pequenos, pegavam-se pela mão e iam juntos, sem medos. Talvez fosse a idade que subentendia ousadia camuflada de coragem, talvez fosse mesmo essa a sua verdadeira essência. Percorriam a vida como se a vida de cada um fosse uma só, desde sempre, como se tivessem nascido juntos, no mesmo dia, à mesma hora.
Não existiam dúvidas na hora de querer estar. Queriam sempre, para fazer tudo, ou para não fazer nada. Estar, ser em conjunto, era o suficiente em todos os momentos da sua curta existência. Quando não estavam, procuravam saber, contavam dias, horas. Eram dois, num só, porque um sem o outro não tinha graça e nos seus corações, nem sequer fazia sentido. Tornaram-se gente grande, assim. Compartilhando tudo, vivendo as dores e as alegrias como se fossem sentidas pelo mesmo peito, pela mesma alma, pelo mesmo corpo.
Hoje já não sabem precisar o tempo que passou. Já não lembram a última vez que viram o rosto um do outro, que trocaram dois beijos, ou duas palavras. Conheciam-se como a palma das suas mãos, agora sobraram apenas essas, livres e soltas dos dois. São desconhecidos, em tempos inseparáveis, como se de uma outra vida, numa outra dimensão se tivesse tratado, tendo sobrado apenas fotografias velhas comprovando que ali existiram. Os dois, sempre os dois.
Agora, tudo crê que ele não sente nada, como se nada alguma vez tivesse sentido, ao passo que ela guarda a sua saudade frustrada, aprendendo a todas as horas que nada é para sempre e que até a mais bela e perfumada rosa, se não for lidada com cautela e preceito, acabará por nos fazer sangrar.
É a primeira vez que te escrevo, numa carta sem destino. Não tenho envelope nem morada, não a remeterei a ninguém, mas sei que chegará a ti. Pelos vistos todas as minhas palavras chegam. Hoje ganhei uma batalha e sinto que te devo um obrigada. Deves saber, mas acompanhaste-me sempre, junto ao peito, até ao minuto em que, finalmente ouvi, "sim".
Não acredito no céu, no paraíso, no inferno. Não acredito na vida depois da vida terminar. Não sei onde possas estar, se estarás, sequer. Se és matéria ou ilusão. Se algum dia vou poder conversar contigo, sem que esta conversa se resuma a um monólogo injusto e a oferenda de uma rosa branca que morre sem que lhe toques. Mas acredito na tua energia, na tua presença constante, na tua mão amparando-nos a todos, incessantemente.
Sei, não certa na verdade, que a vida acontece como tem de acontecer, umas vezes bem outras mal. E não tendo tu o poder de a controlar, olhas por nós, e amenizas o sofrimento que não podes aniquilar por completo, ajudas a resolver no último momento o que pensámos já não ter solução, acalmas os nossos corações quando eles batem depressa de preocupação, para depois percebermos que, afinal, tudo o que aconteceu foi pelo melhor.
Chamem-me tola, louca, por ser tão crente em ti e apenas em ti. Mas são coisas que se sentem, que sempre senti. Não acredito em tudo o resto que nos vendem há séculos, mas acredito em ti. Não me peçam explicações, pois o meu coração não me diz porquê, diz que é assim e assim será, e eu nunca duvido daquele que me bate no peito.
Obrigada, tio. Mesmo que tua presença, seja afinal ausente, utopia que criei em mim, agarrei-me e agarro-me sempre a ti para fazer peito a todas as lutas que me impõem. Obrigada. Porque, mesmo não estando, mesmo não sendo, mesmo não existindo, sinto, crendo e quase sabendo, que fizeste mais por mim do que aquele que posso tocar, ver e conversar quando quiser. Não me questiono muita vez sobre esta sensação de protecção, acredito na sua verdade, mesmo que seja, no fundo, a maior mentira pela qual poria as mãos no fogo. Assim sendo, obrigada, meu tio. Obrigada.
A chuva que caía de madrugada e batia na janela acordou-o do sono pouco profundo que sempre dormia. Eram pouco mais que cinco da manhã e já sabia que não dormiria mais. A idade assim o ditava há já algum tempo. Deixou-se ficar na penumbra, a ouvir a chuva no vidro e à espera que o tempo passasse. Há muito que deixara de viver, sobrevivia até a sua vida não poder ser mais.
Tinha tido pai, mãe, irmãos e filhos. Tinha tido sobrinhos e sobrinhos netos. Tinha tido tudo e nunca deu valor a nada. Quando era mais novo sempre fez por se mostrar indiferente, embora involuntária e inconscientemente, qualquer coisa dentro de si lhe dissesse que o caminho não era aquele e que um dia sentiria vergonha por tê-lo cumprido até ao fim.
Cumpriu e sente vergonha. Sempre fez por manter a sua fachada de homem culto, decidido e realizado, quando ela se desmorona, a vergonha dói. Doeu-lhe. Doeu-lhe muito e muita coisa, e as suas dores misturaram-se numa dor maior que ele, um ser grande e no fundo tão pequeno. Daí não lhe valeu a cultura, e os livros de autores de nomes impronunciáveis, que serviam apenas para enfeitar prateleiras velhas e colmatar a constante solidão que o preenchia, não lhe valeu ser decidido, porque no fundo era fraco havendo sempre quem decidisse por ele, não lhe valeu a ideia de realização, pois vivia a mentira que os outros apreciavam, porque a sua verdade não atraía ninguém.
Continua a acordar todos os dias, sozinho, por volta das cinco da manhã. Continua a deixar-se ficar na penumbra à espera que a vida tome o seu rumo final. E todos os dias, dias longos e penosos, pede perdão a si próprio e a quem o deve também. Deseja ter sido um homem diferente, um homem completo que tivesse plantado o bem para colher os seus frutos, um homem cuja existência não fosse vazia e ecoasse por onde quer que passasse, um homem para quem os seus fossem seus até ao fim, porque lhes dava o devido valor. No fundo, desejava apenas ter sido um homem, como um homem deve ser.