"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
Meu amor, quando leres esta minha carta já não me terás contigo. Não chores. Estou melhor assim. Não encolhas os ombros como se não soubesse que estou melhor aqui, onde quer que esteja, que não sei para onde vou. Não sei para onde, mas vou para melhor. Um dia entenderás que estou feliz, não que não tenha sido contigo, com os nossos filhos. Como fui feliz, meu amor. Mas aqui não há dor, não há sentimento, não há nada. É o vazio total que sempre temi e que agora anseio a cada segundo de vida que me resta.
Não quero que me lamentes, não fui desgraçada nem triste. Tive azar. O bicho, como lhe chamavas apanhou-me. Sou estatística, nada mais. Sei que no início, quando ouvimos essa horrível palavra que não transcrevo só porque sei que a odeias, a revolta foi tão grande, mais tua do que minha. Eu sempre soube que ia vencer, tive medo sim, mas a luta não me empenava os ossos nem a força da minha alma. E como lutei. Lutámos. Se estás a ler esta carta hoje, quero que saibas com certeza e sem réstia de dúvida que não desisti, decidi apenas que a hora quando chega é para nos levar e não vale a pena travar batalhas que já foram perdidas.
Sinto-te neste momento dilacerado ao ler estas palavras. Eu sei, meu querido. Achas que perdeste o norte, que agora nunca mais saberás o que fazer de ti, nem contigo. Não. Tudo isso vai passar, e eu não prometo que estarei lá de cima a olhar por ti, pelos nossos filhos, porque não sei para onde vou, se vou ou se estarei sequer. Sabes que nunca acreditei na eternidade da vida depois da morte e isso sempre te preocupou. Achavas que se eu me agarrasse a deus ou a algum santo que o valha, teria mais força, mais fé. Vocês foram a minha força e a minha fé. Se existisse o deus bondoso de que tanto falam, não estaríamos aqui os dois, agora, eu em forma de palavras, tu desfeito por dentro, sorvendo o resto que deixei de mim.
Pensei muito antes de te deixar esta última carta, este último adeus. Não quero que a leias e releias, vezes sem conta, tentando encontrar nela o que perdeste de mim. Não encontrarás, sabes que fui muito mais que isto. Lê e deita fora. Ou guarda para só lhe pegares quando nem disso sentires necessidade. O que eu fui está em ti, na nossa casa, nos nossos filhos. Juntos criámos o nosso maravilhoso mundo e foi por isso que quis deixar bem claro que me senti amada e que me dei por completo a este nosso amor. Parto orgulhosa de tudo o que construímos e com a sensação de que valeu a pena, o bom e o mau, o certo e o errado, a vida por completo até ao último suspiro.
Não chores mais, meu amor, que as tuas lágrimas não me trarão de volta e o teu sorriso sempre foi o meu raio de sol. Agora continua a nossa caminhada, leva-me no coração, mas não me carregues na mente em demasia. Desapareci, não sou matéria, não me verás mais, acredito. Mas um dia fui, fomos, e espero que isso te dê o alento que te desejo para viveres a vida em pleno, tal qual como eu vivi.
Parti em paz. Levo comigo a alegria de te teres cruzado no meu caminho, o amor que me deste do início ao fim, os dois seres maravilhosos que me ajudaste a criar e até as discussões violentas, mas passageiras que acabavam sempre em gargalhadas. Talvez seja por isso que tenha de partir já. Tive tudo, não ambiciono mais nada. Fiquem vocês, em bem e de bem com a vida. Não ponham nela as culpas da minha falta, porque ela nunca nos enganou. Nascemos, morremos. Este foi o meu momento, desejo que o vosso não seja tão cedo, ou pelo menos tão sofrido.
Desculpa se te desiludi, se achavas que deveria ter dado um pouco mais de mim, mas acredita, amor, não tinha mais nada para dar. Não seria eu a viver, mas sim a sobreviver, sofrendo, por vocês. Não é justo para nenhum de nós, mas é o alívio que precisava para me preservar como sempre fui. Forte até na morte.
Então limpa essas lágrimas, dobra essa carta e não lhe toques mais. Não ficou nada por dizer ou fazer e isso deve te ajudar a lidar um pouco melhor com a minha ausência definitiva. Ainda que acredite que neste momento não sou nada, o vazio que não preencho mais, continuará a amar-te para sempre. Por isso, não chores mais, meu amor. Eu morri mas o meu amor por ti pulsará, infinitamente, no lugar do meu coração. Vá, meu amor, não chores mais.
Tirou o vestido e mergulhou no rio. Assim, sem medos nem pudores. Ali ficou até, não o corpo, mas a alma refrescar. Nadou até à beira e caminhou descalça até ao carro. O rosto dele não lhe saía da cabeça. Vestiu a roupa com o corpo ainda molhado, deixando transparecer as suas formas de mulher feita. Fumou um cigarro antes de arrancar e seguiu caminho, com a vontade de o ver e a certeza de que isso não ia acontecer.
Na cama, sozinha, revia na sua mente como e porquê. Durou pouco mais de um ano, um ano em que se tinha mudado como pessoa e como mulher. Não o queria, sabia no início. Era bom amante. Dava-lhe prazer, isso bastava-lhe. Não jantavam, não saíam, pouco falavam durante o dia. Era puro desejo carnal o que os unia, pelo menos assim o entendia, até se ver obrigada a pôr isso em causa. Naquele dia ele não veio, nem ligou e uma estranha sensação de pertença apoderou-se de si. Indignou-se sem perceber porquê, e sem pensar, estava a ligar-lhe.
A partir daí mentiu-se, ignorou-se, não se ouviu quando gritava a si própria "cuidado". Estava presa a ele e na falta de perspectiva de um futuro em comum, era-lhe mais oportuno ser cega, surda e muda dela própria. Escolheu o caminho mais fácil, que hoje era dor pura, desejo incontrolável. Continuou com os seus encontros casuais, sem promessas, sem sequer grande amizade. Era esse o acordo, não o quebraria.
Os dias e as noites passaram, o que não era nada passou a ser tudo, e sem nunca dar o braço a torcer, bebia sofregamente o pouco que ele lhe dava. Esses dias passaram a meses, e tudo tomou proporções inaceitáveis para ela que sempre foi mulher só, independente, que não queria homens para além do prazer que lhe podiam trazer. Agora, contra sua vontade, jurava, queria. Queria tudo o que renegou, queria o seu amor, o seu carinho a sua atenção. O sexo deixou de ser o foco da sua relação, apesar de ser a única coisa que ainda o unia a ela.
Tentou, mordeu a língua, como quis ficar calada, continuando a fachada de que amor era coisa de romances vendidos a cinco euros na feira da ladra. Mas não era. Amor era, agora, o que sentia por aquele homem que antes não queria. Confessou-se como uma criança antes da primeira comunhão. Enrolou, gaguejou, não se reconhecia assim, e não gostava desta sensação de prisão a outro ser que não ela, mas era tarde. Abriu-lhe o coração. Percebeu então que ele ainda estava no início, onde ela começou, sem querer saber, sem a querer, a não ser para as horas bem passadas que tinham juntos. Não o viu mais.
Agora, entre cigarros, punha em perspectiva toda a sua essência. Sempre foi o que quis ser, sempre teve segurança para ser aquilo que queria ser, ter aquilo que queria ter. Hoje era uma mulher comum, que sofria de amores e que comia chocolate, porque aparentemente era o que as mulheres fracas faziam quando o dia era mau, ou só porque sim. Não queria ser algo que desprezava, mesmo que se tenha deixado construir assim, por um amor que não era suposto sentir.
Apagou o último cigarro no parapeito da janela, deitou a beata fora, e olhou a madrugada na rua deserta. A liberdade a fitá-la. Foi aí que percebeu que nunca mais ia ser livre. Não enquanto outro ser habitasse o seu ser, a sua mente e o seu coração. Era prisioneira dos seus próprios sentimentos, esses que nunca pensou sentir tão fortes. Deu voltas à cabeça procurando a cura. Percebeu, final e resignadamente, que para o amor não existe cura. Acendeu outro cigarro.
Pé descalço, cesta velha na mão, trapos rotos a servirem de roupa. O tamanho não lhe confessava o sofrimento, porém o olhar, azul profundo, era de uma tristeza para lá daquilo que alguma vez alguém deveria sentir. Batia de porta em porta, pedia dinheiro, porque o pai assim o forçava, mas era por comida que o seu corpo franzino desesperava. Às vezes, por pena, davam-lhe pedaços de pão duro e raramente chegava a casa de cesta e barriga cheias.
À noite, já exausto, e sem nada para dar, fazia tempo numa esquina escura até o pai se cansar de beber e cair onde fosse, dormindo até de manhã. Nas vezes em que o ouvia entrar, perguntava-lhe o que tinha conseguido. Queria responder, mas não lhe era dado tempo. As pancadas já não lhe doíam e se fechasse os olhos conseguia lembrar o sorriso da mãe, lhe dizendo mesmo sem ali estar, que tudo ia ficar bem.
Todos os dias o seu fado era o mesmo. Passava pelas casas ricas, que eram as que menos lhe davam, porém as que mais lhe doíam. Doía-lhe ver os meninos da sua idade a serem meninos como ele não podia ser, doía-lhe a humilhação de pedir com humildade e cabeça baixa e ser escorraçado como um animal peçonhento, de mãos e coração vazios. A única coisa que o impedia de bloquear por completo os sentimentos, eram as saudades que tinha da sua mãe. Incontornáveis saudades, que ainda assim lhe davam alento, para um dia poder fazer feliz uma mulher, como a sua mãe nunca foi nas mãos do ser desprezível que era obrigado a chamar pai.
Depois de seu pai morrer não rezou pela sua alma, agradeceu a sua perda. Deus que lhe perdoasse, mas parecia-lhe que o pai pecara muito mais do que ele, por lhe desejar tal sorte. Era ainda menino, mas homem que a vida tornou. Sozinho cresceu, nunca isento de sofrimento, mas com o alívio de já não sentir medo. E não existia liberdade maior do que viver sem o medo constante.
Hoje, do alpendre de sua casa, enquanto a sua querida Francisca prepara o lanche dos meninos, vê os netos a correrem serra acima, felizes, brincando como todas as crianças deveriam poder brincar. Os olhos continuam azuis profundos, porém agora não existe tristeza. A vida tirou, a vida devolveu. É feliz.
Fecho os olhos. Está tudo ali. O que foi, o que é, o que será. Não era maravilhoso? Se tudo de bom fosse presente sempre? Divino, intocável. Que cada momento digno de tal, fosse petrificado, eternizado como uma estátua que enaltece. Recordar é viver, diz a canção. Não creio. Viver no passado não é viver, é morrer no presente. Não quero recordar a felicidade, porque isso me deixa triste, quero vivê-la, senti-la, guardá-la de punho cerrado como uma borboleta que quer voar.
Sim, eu sei. A felicidade é feita de pequenos momentos. Não é disso que falo. É desta mania que a vida tem de passar, passar rápido demais, de nos roubar os momentos que contam e deixar-nos com as rugas e a nostalgia. Relembro muita vez os momentos alegres que foram, no entanto, por vezes, parece-me um ritual demasiado penoso, mutilante até, arriscando-me com isso ao exagero.
Acho que é por isso que tento adoptar o sonho como lema de vida, o acreditar na luz ao fundo do túnel, o olhar para o horizonte e ver a ponta da ilha. Digo tento, porque não conseguimos estar de bem com a vida a toda a hora e a cada segundo. Ainda assim, é-me mais fácil olhar para o futuro que posso tentar construir à minha medida, do que contemplar um passado que sinto falta, que de tanta falta chega a doer. Por isso, sonho, ponho hipóteses, planeio e sorrio. Um dia construirei, tornando real, o que na minha mente sempre foi verdade divina.
Atrevo-me, permitam-mo, a mudar a canção: Sonhar é viver.
Tenho tido uma pressa imensa de viver. Viver tudo ao mesmo tempo, agora, já. Quero chegar lá longe, quando continuo aqui, perto de mim, correndo em passo lento, andando em correria louca. O corpo dorme a mente, não creio. Planeio, idealizo, procuro. Não sei se este novo eu, que apresento a mim mesma, é exagero fustigado pela ansiedade desnorteada que tomou posse do meu ser, sei que se o é, doeu. No entanto, agora, alivia devagar. Uma dor que se vai esquecendo que existiu, e que volta de vez em quando avisando-me de que chega de ser forte, sê fraca por um momento.
E sou. Por momentos sou fraca, vulnerável, sempre na minha bravura e confiança imposta a mim mesma, sem excepções. Choro, tremo, tenho medo. Contudo, sigo. Por vezes piso pedras, outras relva fresca que me consola a alma. Mentiria se dissesse que sou feliz a cada momento, seja qual for o chão que piso, mas gosto-me mais assim. Acreditando em mim, confiando naquela que me fita no espelho, pondo as mãos no fogo pelas suas ideias, ambições e futuros sonhados. Gosto-me assim, nesta metamorfose forçada pela vida, abraçada por mim.
A lagarta que se transforma na borboleta. A menina que se torna mulher, mas que sonha sonhos de criança. Que se recusa a dormir profundamente ou a acordar totalmente, mantendo sempre um pé na realidade e outro na fantasia. Falível como todo o ser a quem lhe bate o coração. Errando. Errando tanto. Aprendendo na mesma proporção e tentando ser, não aquilo que os outros esperam que seja, mas aquilo que acredita ser justo ser perante os outros. E não há justiça maior que ser eu própria, mesmo quando isso não vá ao encontro daquilo que acham ser o melhor para mim. Lamento. O melhor para mim é ser completa, e sendo-o, tornar-me-ei mais filha, mais irmã, mais amiga, mais amante, mais mulher.
Esta sou eu, querendo ser muito mais. Caminho aprendendo a confiança, mesmo tropeçando aqui e ali. Esta sou eu por inteiro, segura do que quero fazer, cerrando os punhos à luta que posso até perder, mas que não será por deitar a toalha ao chão. Pela primeira vez me reconheço, sinto-me em mim. Quem dera que dure para sempre.