"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
Posso voltar no tempo? Posso? Só um bocadinho? Ser criança outra vez e andar descalça e apenas de fralda, no quintal da avó. Posso? Quero fechar os olhos e estar lá, brincando na casinha velha, empoleirada na bancada de madeira para chegar à minha pequena janela, por onde via o meu corredor enorme para a minha pequena altura, onde corria e brincava feliz. Quero voltar a encantar-me com a magia de faz de conta que emanava da janela grande, que não se podia abrir e não se sabia porquê. Dormir a sesta lá dentro, ao fresco, quando o calor queimava lá fora. Posso?
Quero pelo menos desacelerar este passo que não é meu, que não comando. Queria a minha inocência de volta. Acreditar que todos são eternos, que os nossos não mentem, que os nossos são íntegros e verdadeiros em cada gesto e palavra que fazem e dizem. Que os nossos, são mesmo nossos. Nem sempre os que partem nos fazem, honestamente, falta. Mas é uma triste realidade que não tinha, e agora tenho sem a querer. Não queria perceber, afinal, que os nossos são de carne e osso como todos os outros, e que também mentem, também enganam, também ferem sem sequer saberem que sabemos calados. Reconstruir a imagem que tínhamos é doloroso demais. É possível, mas não é. Há sempre a pedra no sapato que às vezes se lembra de rebolar para o sítio onde dói mais e nos traz à cabeça todas as ilusões que morreram quando nos tornámos adultos.
É um misto de sensações. Tudo é diferente. Um diferente bom e às vezes um diferente tão mau. Quero voltar no tempo não para sempre, mas o suficiente, para poder ser pegada ao colo pelo meu avô só mais uma vez, ao invés de ter de ajudá-lo a caminhar, como ele me ensinou a mim. Para, pela mão da avó correr os campos, que hoje não tem força para correr, nem pela minha mão. Para poder fazer perguntas disparatadas, para achar que os pais são super heróis e não desiludem. Queria só mais um bocadinho desse pedaço da vida, que tenho guardado no peito, para poder respirar fundo e com a paz de antigamente, voltar para enfrentar a realidade de hoje.
Fecho os olhos, dou dois passos atrás e procuro alento nas lembranças felizes, para poder deixá-las partir. Fico, dois passos atrás de mim mesma, observando o que foi e o que agora é. "É a lei da vida.", ouço, repetidamente, agora ao longe. É verdade. É a lei da vida. Nascemos, crescemos, morremos. No entretanto vamos sendo tristes e felizes em proporções diferentes, consoante a nossa sorte e força de espírito. É a lei da vida, mas nem por isso é justa. Não é, não faz sentido. Começamos por onde devíamos terminar. E eu queria voltar ao começo, para poder, um dia, terminar em paz.
Os amores da vida não se conseguem explicar. Uns imediatos, outros crescentes com o tempo, outros ainda agarrados ao peito para toda a vida. Os nossos amores são todos diferentes e não se resumem em palavra nenhuma. Há os que acabam, ferem e depois se esquecem, há os que com o moer do tempo se tornam numa doce amizade que a rotina não deixa quebrar. Depois existem amores como tu. Que ainda não via mas que já amava, que quando peguei no colo soube que era amor antigo, ainda que tão recente. Cresces rápido e o meu amor acompanha essa velocidade. O teu sorriso traz felicidade pura nos momentos mais tristes da vida e isso não pode ser nada se não amor.
Lembro-me de cada momento do dia em que nasceste. Estava tão irritada com a vida, irritada com a chuva intensa que caía sobre a minha cabeça que tinha esquecido o chapéu, tão irritada por não ser sexta-feira e o dia estar a acabar, estava tudo a correr tão mal. Segundos depois tudo mudou. Tinhas chegado. Já não havia chuva, não existia revolta com a vida, já não queria que fosse sexta-feira, porque foi a quinta que escolheste para nos encontrar. Naquele momento, fizeste com que relativizasse tudo, e relembraste-me que nos aborrecemos com tão pouco, e nos esquecemos que também é preciso tão pouco para sermos genuinamente felizes. Há um ano atrás o meu coração crescia mais um bocadinho, há um ano atrás fiquei mais rica, há um ano atrás enquanto todos te olhavam com um sorriso no rosto e lágrimas de alegria nos olhos, eu só pensava que a vida, tão aleatória, fazia-nos sofrer, mas depois mandava-nos dádivas para nos compensar. Há um ano atrás tinhas chegado e um ano depois o amor não é igual. É maior e sente-se a crescer no peito, cada vez que vejo o teu sorriso, todos os dias um bocadinho. Parabéns meu anjo e que a vida te preencha com muitos amores iguais a este que nos fazes sentir.
Quando nascemos, nascemos nus. Não só de corpo, mas de tudo. Seres completamente puros, sem termos, ainda, sido corrompidos pelo mundo onde viemos parar. Crescemos por dentro e por fora, na medida do meio onde a nossa sorte nos fez brotar. A vida é aleatória. Uma roleta, cujo o preço vai muito além do dinheiro. A vida paga-se com a própria vida.
Nasceu numa aldeia linda, que amava. Pais pobres mas ricos de amor, que não poupavam em lhe dar. Quem lhes dera que não tivessem de o mandar guardar rebanhos depois da escola, mas não havia outro remédio. Ele entendia e não lhe metia medo o trabalho. Nas noites mais frias, a sopa fervida, pouco consistente ajudava a aquecê-lo antes de se deitar no colchão de palha. Dava graças ao cansaço que sempre sentia, e que o adormecia mesmo, ainda com fome.
Sabia que havia uma vida melhor, que ele podia ter uma vida melhor. E mesmo guardando rebanhos de pé descalço, sentava-se nas pedras frias do campo, estudando matemática, ou lendo livros grandes demais para a sua idade. Um dia disse aos pais que haveria de estudar na universidade, ser doutor e comprar-lhes uma casa onde a chuva não entrasse pelo telhado e onde o frio e a fome não os atacariam mais. Os pais sorriam, por um lado felizes pela alma crente e lutadora do filho, por outro, tristes e comovidos pois para eles sonhar era mito, e a vida que lhes calhara, não mudaria nunca. Ele haveria de se conformar um dia.
Nunca se conformou. E por isso mesmo passava noites em claro a estudar, a ler, a procurar aprender mais. Era inteligente, tinha potencial para se tornar um grande homem, que um dia havia sido apenas guardador de rebanhos. Era nisso que acreditava, era isso que lhe dava alento. Sabia que os pais nunca poderiam pagar-lhe os estudos, e, por isso, decidiu arranjar também um emprego numa loja de ferragens perto de sua casa. A exaustão que sentia não o desanimava. Pelo contrário, a imagem de um futuro descansado, fazia com que não sentisse as dores que o corpo acusava.
Estava cada vez mais perto do seu objectivo e, até os pais, descrentes na vida, começavam a ser contagiados pela esperança do seu menino, quase homem. Enquanto contava, entusiasmado o dinheiro que tinha juntado para os seus estudos, a tosse fê-lo voltar ao início vezes sem conta. A mãe apalpou-lhe a testa e sentiu-o a escaldar. Preparou-lhe um chá quente e um xarope caseiro, agasalhou-o o melhor que pode e deitou-se ao seu lado para lhe aquecer o corpo.
No dia seguinte, ainda febril, insistiu em cumprir todas as suas tarefas, o futuro não esperava por ninguém, e não era uma febre que iria atrasar o seu destino. Não atrasou. Vários dias passaram, e a febre virou febrão, a tosse transformou-se em aflitivos jorros de sangue vivo. Chamaram o médico que lhe diagnosticou uma tuberculose e não deu esperanças além da semana que decorria.
A mãe chorou e rezou noite e dia, o pai sempre a seu lado dizendo-lhe para lutar. Então e os seus sonhos? Os estudos pelos quais batalhou? O filho doutor que teria. Tudo terminou duas noites depois, os olhos ávidos, espertos, cheios de vida e esperança ficaram abertos no seu último fôlego, enquanto uma pequena lágrima lhe escorria pela face ainda quente. Foi o pai que lhos fechou com o sinal da cruz. Ali, naquele instante morreu uma vida que podia ter mudado vidas, uma vida sofrida na esperança de uma outra melhor.
A vida é aleatória. Lança-nos a jogo à revelia, e nunca sabemos em que lado do tabuleiro vamos parar. A vida é aleatória e injusta, mata pessoas e sonhos sem porquês, sem lição no final. Resta-nos a nós ler nas entrelinhas. Viver intensamente, lutando até à exaustão pelos nossos sonhos, pela vida que queremos que seja a nossa, mesmo que nunca venha a ser. Ver o bom e afastar o mau, aprender a saber quem nos quer bem ou mal, e preservar os primeiros. Ser perspicaz sem perder a inocência de criança que nos faz ver mais além, para lá do horizonte. E com tudo isto, manter a consciência de que o jogo não tem regras, de que num segundo o tapete te é tirado dos pés. Quando a hora chegar, que tenhamos pelo menos a alma tranquila, o coração preenchido, e a certeza que vivemos esta vida injusta, sendo sempre justos para connosco e para com os outros.
Trazia na mão o terço de sempre. Ajoelhava-se na Capela e orava. Pedia a deus pelos seus, por si, pelo mundo e o que mais se lembrava. Estava no alto dos seus setenta e seis anos e entregava-se nas mãos do senhor, que a amparava nos momentos mais difíceis e segundo a própria nunca a tinha deixado ao abandono e lhe atendeu sempre todos os pedidos. A idade tem a mania de trazer uma espécie de impunidade a todos os seres. É idoso, crente a deus, boa pessoa.
Teve três filhos, o primeiro com dezassete anos, fruto de uma relação desaprovada e inapropriada para a época. Casou como mandavam as leis da família e de deus. Foi casada com o mesmo homem até ele falecer, quarenta e seis anos depois. Traiu esse mesmo homem, que sempre lhe foi fiel durante tantos anos quanto aqueles que viveram em comunhão. Morreu sem saber que tinha apenas um filho, não três.
Nunca foi mãe a não ser na hora do parto. Não houve carinho para os filhos, não havia jantares em família e a maior parte das vezes não sabia por onde andavam e isso não lhe apertava o coração. Era a favor da disciplina da pancada, e dava, sem ver onde, nem porque batia. Batia, simplesmente. Talvez porque eles lhe estragavam a liberdade que sempre desejou ter.
Não trabalhou um dia da sua vida, sustentada por um marido que se fazia de cego, porque quem não vê não sente dor, não tem de reagir e confrontar. Nunca lhe faltou comida na mesa, no seu lugar da mesa. Os filhos comiam a sopa e os restos que sobravam e quando cresceram o suficiente, era tempo de se sustentarem e fazerem as suas vidas longe da mãe que nunca o quis ser.
Viu o filho mais velho ser levado para junto do senhor, como conta hoje às companheiras de missa, perdido pelo terrível mundo das drogas. E os outros, coitada, abandonaram-na à própria sorte, sem uma visita ou um telefonema para saber como estava. Coitada, era o que mais lhe chamavam. Velha, viúva, sozinha no Mundo. Pobre senhora.
O tempo tem esta mania de apagar tudo, amenizar tudo, perdoar tudo. O tempo disfarça a maldade com rugas, veste de frágil quem sempre teve força para ser vil. O tempo apaga pecados, perdoa crueldades imperdoáveis. O tempo que passa por todos nós não faz triagem, e todos os que atingem uma idade respeitável são livres de todas as barbaridades que cometeram quando o sangue ainda corria fresco nas veias. E assim a senhora se passeia, cabeça erguida, mão no peito, rezando ao senhor. Aquele que se existisse, não lhe permitiria a entrada no seu reino tão desejado e já a teria punido pelo mal que semeou e, curiosamente, nunca colheu.
O despertador tocou à hora de sempre mas, pela primeira vez, ela não o ouviu. Perto dali ele levantava-se pontual e bem disposto. Tomou um duche e o pequeno almoço com calma, a pensar nela. Aquele rosto rosado de cada vez que trocavam olhares, palavras nunca. Todos os dias se cruzavam, todos os dias o universo os empurrava um contra o outro, como se tivessem sido criados para se encontrarem, para estarem juntos uma vida, mas por algum motivo sempre resistiram a esse magnetismo. Riu-se dos seus pensamentos. Na verdade não a conhecia, e no entanto imaginava-se velho ao seu lado.
Ela dormia profundamente, enquanto se atrasava a cada minuto que passava. Sonhava com ele. De fato escuro, olhos azuis a contrastar, esperava por ela no banco da estação, para juntos seguirem o seu caminho, um único caminho que seria dos dois. Acordou com um sorriso nos lábios. Que coisa era esta de gostar assim de alguém sem lhe saber sequer a voz? Olhou para o relógio e sobressaltou-se. Correu para o armário, escolhendo a roupa à pressa. Era a entrevista mais importante da sua vida e ia chegar atrasada.
Ele saiu de casa ainda a tempo de comprar o jornal, pelo caminho viu flores e sem pensar comprou uma rosa. Apercebeu-se que aquele era o dia em que a coragem lhe permitiria conhecer a essência daquela mulher maravilhosa que já amava sem conhecer. Seguiu seguro de si, no seu fato elegante, com o seu olhar profundo reflectindo o êxtase que sentia pela decisão que tomara.
Não podia sair desarranjada. Queria causar boa impressão. Levou o seu tempo, maquilhou-se, arranjou o cabelo o melhor que sabia e chamou um táxi, que seria mais rápido. Ao mesmo tempo apercebeu-se, também, que não se iria cruzar na estação com o homem de olhos azuis por quem se apaixonou sem saber como nem porquê. Sentiu-se mal por isso. Pegou nas chaves e na mala e saiu a correr, ensaiando frases feitas para a entrevista. Curiosamente, parou na pergunta que questionava a sua vida dali a cinco anos. Queria dar uma resposta coerente, inteligente e reflectida, mas a única coisa que lhe vinha à cabeça era ele. Dali a cinco anos queria que a vida fosse ele.
Chegou à estação na sua pontualidade britânica, ao mesmo tempo que ela atravessava a cidade no banco de trás de um velho táxi. Dirigiu-se ao banco onde ela sempre se sentava a ler um livro, mas não a viu. Olhou em volta, no meio da multidão, mas nem sinal da mulher de cabelos escuros de quem não sabia o nome. Ela chegou à empresa em cima da hora, e com uma saudade inexplicável no peito. Ele apanhou o comboio e guardou a rosa na pasta. Talvez amanhã, pensou. Talvez amanhã, sussurrou ela baixinho.
O amanhã chegou para cada um deles, mas nunca para os dois. Nunca mais o homem de olhos azuis se encontrou com a mulher de cabelo escuro. A rosa murchou, assim como um amor, que não chegou a ser, se perdeu para sempre no destino que é incerto.
Dizem que não importa se acabou, o que importa é que aconteceu. Que treta. As saudades não são a beleza do romantismo barato. Elas doem que se farta e a maior parte das vezes não há analgésico que as mate de oito em oito horas. Tudo acaba, é a lei da vida, o tempo cura tudo, as memórias ficam. Tretas. Tudo acaba sim, o tempo atenua, felizmente, mas não me lixem. Um pai que perde um filho não sorri de saudade. Uma mulher que se divorcia não se agarra à moldura com a fotografia do casamento a agradecer aos santinhos, porque aconteceu, apesar de tudo. Um jovem que é atropelado numa passadeira e fica agarrado a uma cadeira de rodas o resto da vida, não bate palmas porque um dia andou. As pessoas ultrapassam as coisas porque são fortes, mas deixem-nas chorar as lágrimas que forem precisas para a dor amenizar e passar a ser apenas uma dormência passageira.
Eu sei, é o lado optimista de ver a vida. Não me interpretem mal, sou optimista, crente naquilo que quero, sonhadora, às vezes até demais, mas as saudades doem e quem disser o contrário é porque não tem grande coisa para recordar. A vida vai andando, muitos vão-te desiludindo, outros, menos que os primeiros, amam-te de verdade, e todos eles te proporcionam momentos, bons e maus. Quando olhas os maus, desvias o pensamento, recalcas, ou dizes um monte de asneiras e fechas a gaveta. Se a abrires novamente sabes bem que vai doer à mesma. Quando olhas para os bons, claro que sorris, mas e o aperto no peito pelo tempo passar por nós como o vento? Esse não dói? Não dói chegares ao fim da linha e saberes que tudo o que tens são memórias e pouco tempo para criares mais?
Não sou apologista dos saudosismos, da nostalgia de momentos passados. A vida vive-se pondo um pé à frente do outro e não o contrário. Não suporto ouvir a frase feita do "sorri porque aconteceu". Mas sorri, porquê? Se dói que doa! Chora! Sorri só quando o sorriso não doer, quando a lembrança não te infectar por dentro. Ou então não sorrias por isso. Existem tantas coisas para sorrir. Que tal sorrir pelo futuro que ambicionamos? Parece-me muito mais saudável do que engolir as mágoas ou a nostalgia do fim, só porque sentir saudade é beleza no seu estado mais puro.