"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
Não sei que idade faria, não tenho o seu rosto presente, nunca lhe soube a voz. O que sei dele são fotografias antigas, meia dúzia de histórias e datas. Data de chegada fugaz, data de partida eterna e madrugadora. Sei que hoje seria dia de lhe dar os parabéns. Parabéns por uma vida que já não tem, que foi mais breve que a minha. Ao invés, é um dia cinzento, de ausência reforçada para quem se habituou sempre à sua presença. Não sou uma delas, infelizmente, contudo, ainda bem.
Ainda assim, o dia não me passa em branco. A ligação é forte, talvez porque nos une alguém que ambos amamos eternamente, eu de coração a bater, ele a iluminar-nos, por certo. Hoje dou-lhe o meu sorriso, ainda que chore por dentro e por fora. "Tola, não o conheceste." Conheci, sim. Conheço. Sinto por ele e por quem não o tem. Sinto por mim que também precisava da sua vida na minha. Porém, está comigo, ainda que fisicamente os momentos tenham sido tão breves, levo-o no coração, sempre.
Hoje ofereço-lhe o meu pensamento, mesmo que seja dele tantas vezes. Hoje oferecerei a rosa branca por mim, por ele, por aquele que deixou, sem querer, mudo da palavra "pai". Hoje ofereço-lhe a minha saudade, que é grande e que só a consigo explicar pela dor que a sua ausência provoca em quem eu amo. Hoje ofereço-lhe o meu amor, pois sei que onde quer que esteja, estará comigo, empurrando-me quando as forças me faltam, iluminando-me a saída quando a luz me falha. Amando-me, amando-nos, nesse sítio eterno que não sei onde é, mas de onde sei que não arredará pé para nos proteger.
Não posso nem consigo usar o termo correcto para a data que se assinala. Parabéns não é justo se ele não está aqui. Como ele merecia estar aqui. Envio-lhe apenas, em pensamento, o meu beijo e o meu abraço forte, que um dia trocámos, mas que só ele pode recordar. E recordas, não recordas, tio? Guarda-os contigo. Relembra-os as vezes que puderes, porque um dia, eu tão descrente nas coisas da morte, acredito que vamos repeti-los, quando nos reencontrarmos não sei quando, não sei onde, não sei porquê. Até lá, tio.
A vida é complicada. Tão complicada que conseguimos a proeza de a complicarmos ainda mais, no seu emaranhado de complicações. Perdemos uma moeda e é como se o mundo desaba-se na nossa cabeça. Partimos um copo e com a raiva partimos outro. Entornamos o café acabado de tirar na camisola acabada de lavar e só nos podem ter rogado uma praga! Eu sou assim. Somos todos, uns mais que outros. Perspectivamos as coisas, às vezes tarde demais. Tarde demais nos apercebemos que nem a moeda, nem o copo, nem o café eram realmente importantes nos breves minutos que fizeram parte da nossa história, mas sim os amigos, a família, o amor, o carinho e a entreajuda. Tão presentes, que só damos por eles, quando não estão mais. Já perdi muita coisa, mas nunca perdi o que realmente importa. Mentiria se dissesse que agradeço todos os dias por isso. Não o faço. Mas tenho consciência da bênção que é e da excepção que sou.
Tenho vinte e sete, mas nasci há cinquenta e um anos. Há cinquenta e um anos nasceu aquele que me faz relativizar as coisas na aterrorizadora possibilidade de não o ter mais comigo. Aquele que me deu a mão e o colo, e hoje, mesmo não dando, dá à mesma de tantas e variadas maneiras. Aquele que foi, é e será sempre o meu melhor amigo, porque o amor dos dois é incondicional, inabalável, impenetrável. Aquele com quem aprendi o sentido de humor, o riso fácil e de quem invejo, na esperança de um dia lhe herdar, a capacidade de sorrir quando todas as células do seu corpo lhe imploram para chorar. Aquele com quem discuto, me desiludo tal como, por certo, algumas vezes se desiludirá comigo, mas a quem desculpo sempre. Aquele com quem nunca me zango, mesmo estando zangada, pois nunca guardo, nunca relembro e segundos depois a conversa flui como sempre fluiu, como se nada nunca nos apoquentasse. Na verdade não apoquenta. A amizade verdadeira vai além de qualquer coisa. Somos pai e filha, mas amigos, acima de tudo, e sinto que nasceu para me poder guiar. Fá-lo bem.
O meu pai faz hoje cinquenta e um anos e hoje faço o que deveria fazer todos os dias. Agradeço. Agradeço ao destino por me ter dado um pai tão amigo, tão ternurento, tão forte, tão cúmplice. Tão pai. Como todos os filhos deveriam poder ter. Obrigada pai. Parabéns.
Sinto que um balão se esvaziou dentro do meu peito. Estou triste, estou tão feliz. É confuso, eu sei. Mas acho que não pode haver felicidade na sua plenitude. Existem coisas boas e existem coisas más e é a maneira como lidamos com as más que podem fazer as boas saber a doce. Neste exacto e preciso momento não sinto ansiedade no peito, como há muito, muito tempo não sentia, e acho que sei exactamente porquê.
Continuo a acompanhar, com tristeza, o degradamento de quem me deu colo, me criou, me amou. Chorei e isso aliviou-me. A vida cumpre-se como tem de se cumprir. Conformo-me. Apaguei da minha cabeça todas as frases ensaiadas durante anos, horas perdidas a pensar que queria dizer, que devia dizer. Outras tantas a convencer-me que é melhor não mexer, que, por vezes, o melhor é a apatia, agreste em mim, mas suave nos outros.
Disse. Disse tudo e a todos. Despi por completo a minha alma sem medos, sem temores. Confrontei todos os que tinha para confrontar e acredito cada vez mais, que calar não é mesmo o melhor remédio. Calar corrói, massacra, mói. Calar é espetar farpas constantes no coração sem dar tempo dele parar de sangrar. Não. Não me calo mais.
Desta fase difícil da qual estou cansada e ansiosa que pertença ao passado, sei que ficam algumas lições. Amadureci, mesmo que a vida me tenha sempre obrigado a ser um pouco mais crescida do que aquilo que deveria ser. Aprendi que se tenho voz é para usá-la. Que me doa antes essa de tanto ser genuína, do que o coração por abri-lo ao meio, enchendo-o do veneno que destilam em mim.
Fiz a maravilhosa descoberta de que, às vezes, dizer o que pensamos, o que nos magoa, pode servir de curativo efectivo. É conversando com sinceridade que muitas vezes se dão milagres inesperados. Conseguimos perdoar quem teve a mesma genuinidade, e até lamentar termos perdido tempo a julgar em vez de tentar compreender. Conseguimos esquecer quem existiu na nossa vida, no nosso sangue, sem uma réstia de dor, pois percebemos que a vida é curta demais para tentar fazer do diabo um santo. E mais importante, conseguimos pôr pedras em assuntos que foram murros no estômago, desmoronar de opiniões sagradas. Apanhamos o santo que caiu do altar, e pensamos que o amor supera tudo, e que em boa verdade, quem nunca errou, que atire a primeira pedra. Tenho a certeza que não cairá nenhuma.
Teorias são isso mesmo, teorias. Na prática, cada um sabe o que resulta melhor para si. Sempre me disseram que ignorar é o melhor remédio o que mais dói, o pior veneno que se pode dar a beber a quem nos faz mal. Sempre fui seguindo a teoria que me davam, ainda que a minha cabeça ficasse pesada demais com palavras não ditas, por cada vez que a minha boca se selava, em nome da tão afamada teoria.
Pois a teoria tornou-se o meu pior veneno, e aprendi a calar, a aquietar-me quando o meu coração implorava para agir. Sim, existem pessoas, que não merecem esse estatuto, que não são dignas do nosso olhar, da nossa presença. Mas antes de as deixar partir, preciso de mais. Preciso despejar todas as palavras que não foram ditas, que eu merecia dizer, e que eles mereciam ouvir. Então, depois sim. Depois eu serei a rainha no reino do meu silêncio.
Tenho o coração acelerado, a cabeça esvaziando como um balão. Segui o meu instinto e despejei sentimentos, emoções, verdades e injustiças. Tudo de uma só vez, numa só noite. Tenho o coração a bater muito depressa, acho que de felicidade, por ter tido finalmente a coragem de fazer aquilo que há anos ele implorava sufocado, para que eu fizesse. Fiz. De cabeça erguida, sem orgulho ferido por ter dado as minhas palavras. Pelo contrário, vou dormir mais leve. Mandei o peso para quem o merecia carregar e provei a mim própria que quase nunca a teoria, dispensa a prática.