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2 Steps Back

"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego

2 Steps Back

"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego

Mudanças de esperança.

"Eu tenho uma espécie de dever, dever de sonhar, de sonhar sempre, pois sendo mais do que um espectador de mim mesmo, eu tenho que ter o melhor espectáculo que posso. E assim me construo a ouro e sedas, em salas supostas invento palco, cenário para viver o meu sonho entre luzes brandas e músicas invisíveis." Que a última noite do ano seja serena e cheia de sonhos bons.

E foi, assim, citando Pessoa, que me despedi de 2011, sonhando e acreditando num 2012 cheio de oportunidades, esperança e conquistas. Na verdade, hoje, precisamente um ano depois, sinto o mesmo em relação aos 365 dias que se aproximam. Não muda nada, eu sei. É a viragem de um dia que, por acaso do calendário, muda o último algarismo do número que forma o ano. A mudança não está no tempo, mas em nós.

2012 foi um ano cruel. Atacou-me à traição, sem explicação, sem previsão. Tive conquistas, sim. Mas que foram em tantas vezes camufladas pela dor que este ano que, agora dá o seu último suspiro, me causou. Por cada vez que respirava de alívio algo me feria o coração. Foi um ano de luta constante contra algo que ainda, neste momento, não sei explicar e não passou. Foi um ano de murros no estômago, magoando-me ao ver tamanha dor no rosto dos meus, apanhados na teia da idade, nos males da sua doença. Foi um ano de perdas tão jovens, e ainda dói saber que serão ausência em 2013. Foi um ano de provações a todos os níveis, de confronto com tudo o que dói, olhos nos olhos com a vida e com a morte, com anjos e demónios, com a dor e a doença, a possibilidade iminente, pairando sobre as nossas cabeças, de perder as minhas referências de infância, que me enchem tanto o coração.

Estou triste e cansada de 2012. Zanguei-me para a vida com este ano malvado que nos trouxe tantos momentos de aflição, tantos corações apertados nas mãos que o medo gelou. Tenho presente cada lágrima, cada choro sentido dos meus. A notícia do fim, que ouvi e tive de repetir vezes sem conta aos olhos sem vida que me olhavam. O sofrimento do outro lado do telefone, a distância de não poder amparar a amiga que amargura a dor de perder outra. O nó na garganta quando me pede, entre um soluçar desesperado, para não partir também e a deixar órfã de mais um amparo, de mais uma amizade. Que ano ruim. Que ano sofrido.

Não, a mudança de um segundo para o outro não define o que o resto do ano será. Mas dá-nos nova esperança, a oportunidade de começar do zero, a bênção de sentir que podemos tudo, pois ainda nada começou. E é por isso que vejo 2012 morrer, com a mesma esperança que o vi nascer, carregando agora comigo todas as lições que me obrigou a decorar. Então desejo novamente, acreditando piamente naquilo que digo, que 2013 seja o ano da magia, da bondade inesperada, da vida a florescer, a seguir o seu caminho que é em frente que se faz. Que 2013 nos traga paz e lucidez, que nos faça reflectir em nós e nos outros, abrindo as nossas mentes e corações, dando a mão ao próximo, que tendemos, invariavelmente, a ignorar e desprezar. Que 2013 seja o ano dos sonhos, daqueles que tanto penso, falo e acredito. Que seja mesmo, de uma vez por todas, o ano dos sonhos materializados nas nossas mãos e da alegria a preencher-nos o coração.

Dores de medos sem nexo.

Trago comigo a impaciência do futuro ausente e a apatia momentânea e assustadora que me colaram no corpo. Que tolice. Ter medo do próprio medo é a maior idiotice que alguém pode sentir. Acontece que tenho sido idiota e uma vez que se veste a pele do lobo é tão difícil arrancá-la da nossa.

Neste limbo sem sentido já fiz mil viagens sem sair do lugar. Fui lá atrás e revi pessoas e momentos, falei-lhes no meu pensamento, procurei porquês. Regressei, mas fui de novo. Sempre, cá e lá, tentando perceber quem colocou em mim este mal que não arreda pé de tão burro que é. Fui eu. Sou eu que visto esta pele que não é minha no sonambulismo da vida. Não me culpo, mas se o fizesse era eu quem se sentava no banco dos réus. Sim, fazem-nos mal, querem-nos mal, a vida corre-nos tantas vezes mal. Somos fortes até termos forças para o ser, caímos quando as pernas adormecem com o peso do mundo, mas, caramba, temos sempre a escolha de nos levantarmos. 

Dói. Se dói. Uma dor igualmente tola, idiota, mas ainda assim dilacerante. Dói acordar desse quase desmaio, dói o impulso de nos levantarmos e cairmos de novo. Dói tanto, senhores. Podemo-nos entregar à dor, que nos torna dormentes, e viver reféns dela até um dia acordarmos ou a morte nos levar. Mas podemos lutar. Cair, cair e voltar a cair, se isso significar que no entretanto nos vamos levantando. 

Não estou de pé. As dores, estas dores tolas de alma, que me doem no corpo ainda não me permitem erguer sem me estamparem no rosto uma amargura inexplicável. Contudo, agora percebo, talvez ainda sem aceitar, o sentido de tudo isto. Vai doer mais, a cada manhã, a cada raiar do Sol. Vai doer menos por cada vez que fizer o peito à luta, que não fugir do medo por medo. E nesta ridícula viagem, que ainda me revolta, descubro uma das maiores lições que o destino me podia dar. O tempo não congela, os relógios não param e a vida segue sem esperar por nós, tornados vegetais por causa nenhuma.

Então digo a mim mesma, engole o choro, aguenta as tuas dores. Deita-te e ergue-te com elas. Um dia vou acordar e levantar-me, viver a minha vida, sonhar os meus sonhos. E à noitinha, descansando o corpo recostado, só então vou perceber: a dor que doía não dói mais e a alma, essa que já achava perdida, sarou mais forte, mais minha e livre do medo tolo que o medo provocou em mim. 

Vai menina.

Vai menina agarra o tempo e a vida. Vai e faz dela tua, realiza-a nos teus sonhos para a concretizares de pés assentes na terra. Vai que o presente é passagem, passado a cada segundo que corre. Não o lamentes, persegue o futuro que é nele que irás acontecer. Anda. Sai do teu ninho e voa. Não tenhas medo do ridículo, nada pode ser ridículo se for feito com o coração.
Ouves o teu a palpitar? Estás viva. Então vive, nãos sobrevivas. Queres? Vai buscar. É difícil? Luta. Estás cansada? É sinal que estás a correr o caminho que o universo te trilhou. Esse caminho é teu, está lá, mas tens de ser tu a resolver cada encruzilhada, sem placas a apontarem a direcção. Então corre. Nada contra a maré e enfrenta as tempestades. Não temas a chuva que ela só serve para te lavar a alma. E quando o Sol brilhar absorve-o em ti. É a tua energia, a tua luz.
Vai menina, vai agarrar o que é teu, o que sempre foi teu sem sequer te aperceberes. Já percebes agora? Então faz-te à estrada. Não esperes caminhadas fáceis, nem aches agora que, afinal, para acontecer basta quereres. Sonha, sim. Acredita na magia do querer. Mas cerra os punhos, enfrenta os fantasmas que te hão-de perseguir, e traz contigo o que te pertence. Não vivas pela metade, quando podes ser completa.
Vai, menina. Vai.

Foi.

Nem sempre "nunca é tarde demais".

Bebe um chá quente enquanto olha fotografias antigas, outras recentes. Compara os rostos e a vida. Tudo mudou. Ela mudou por dentro e por fora, dele não sabe. Há anos que não sabe. Não tem a precisão do tempo que passou, mas sabe que é muito, parecendo-lhe agora demasiado. Ele foi paixão, depois amor, amor que chegava a doer de tão profundo, puro e inabalável. 

Enrolada numa manta velha, de pijama e cabelo apanhado num carrapito, escalda as mãos na chávena de chá com os olhos fixos nas fotografias, porém, no infinito. Já só as olha, não as vê. Na mente a imagem dos dois, quando ainda eram dois e não um de cada vez e em cada lugar. Acreditara até àquele momento que ele era passado que passou e não volta. Memórias lembradas e sonhadas raras vezes, ainda que sempre. E foi esse sempre que a fez esquecer o chá, as fotografias, ela própria. Naquele preciso momento, já sem ouvir, sequer, a chuva que batia violentamente na janela da sua pequena sala, compreendeu o que o coração sempre soubera.

As imagens espalhadas em cima da mesa de vidro embaciaram de repente. Fechou os olhos com força, para conseguir focá-las novamente, e as lágrimas escorreram-lhe pelo rosto, salgando o seu doce chá, amargando a sua alma. Era ele. Ele de quem não sabia mais, mas que agora queria, desesperadamente, encontrar. O amor era aquele homem que jurara a pés juntos não querer saber, acreditara piamente não querer ver. Afinal o amor era descrito com o nome dele, com o seu corpo, com a sua presença. 

Sempre achou que o amor era essencial na vida. Mas pensava, também, que amor que é amor, viria de qualquer forma e de qualquer pessoa, na hora certa, da maneira que tivesse de ser. Não. Amor que dói, que fere, que chega a queimar por dentro era ele, sabia-o agora. A hora tinha passado, o seu amor era amor alheio. Quis levantar-se mas o corpo não obedeceu. Quis procurá-lo, mas a vida dos dois há muito que seguira rumos diferentes. Não tinha mais esse direito. Então, num desespero sereno, cedeu à vida e deixou-se ficar.

Sentada no sofá, enrolada na manta velha, segura a chávena de chá gelado que não bebeu. Olha as fotografias do amor que, por distracção, perdeu. E chora. Assim ficará, até as lágrimas lhe secarem. Quando os movimentos regressarem ao seu corpo, levantar-se-á, pousará a chávena na cozinha e trocará o pijama por roupa de sair. Caminhará na rua, viverá a sua vida, fará tudo o que sempre fez. Terá, porventura até, outras paixões. Porém, dali em diante mover-se-á lentamente e com mais esforço. Carregará sempre consigo o peso de um amor inacabado.

A Saudade tem dois lados.

Saudade é vontade de viver tudo de novo, de dizer as palavras que ficaram por dizer. Saudade é recuar no tempo, onde já não podemos estar e desejar voltar para poder fazer diferente, para tirar a limpo todos os "ses" que nos ecoam na alma. É um infinito de possibilidades utópicas, nostalgia pura, melancolia por vezes. Sentir no peito a saudade é a alegria do coração que bate mais depressa ao ouvir uma voz que há tanto queríamos ouvir. É o frio na barriga ao pensar que voltamos a ver quem achámos perdido nos trilhos da vida.
É sentimento que corrói ou que nos enche a existência com momentos que em tempos a preencheram. Quem sente saudade viveu e gostou. Apesar da, eventual, ferida do fim, não há nada que nos torne mais completos, mais vivos, do que viver completamente, para depois sentir saudades.
Saudade é isso, essa nostalgia doce que nos faz chorar de tristeza e de alegria, que nos põe sorrisos nos lábios ao lembrarmos momentos passados, ao desejar momentos futuros. Saudade é assim mesmo, dor e prazer. A felicidade de ter vivido algo ou alguém, a leve tristeza da ausência de quem já não nos pertence.
Gosto de sentir saudade, e, ironia das palavras, como é bom poder matá-las.

O sonho que agarra o tempo.

Sou uma alma sonhadora, mas limitada no meu sonhar. Vim aprendendo com o tempo a soltar as amarras que me prendiam às razões pelas quais eu não devia, ou não podia. Sonhar é viver aquilo que ainda não existe, vezes e vezes, sem conta, até que o possamos viver de verdade. Sonhar, muitas das vezes, pode ser um regresso ao passado que nos ficou no coração e que, quis a vida, que não durasse até ao presente. Acho que às vezes sonhar é saudade. Saudade misturada com desejo de viver a história diferente daquela que escrevemos, ou escreveram por nós.

Tenho reflectido muito. O bastante para questionar os meus sonhos velhos, entusiasmar-me com os novos. E com isso vem o medo. O medo de que, seguindo o nosso caminho, atropelemos o caminho de outros. Medo do egoísmo que pode ser o sonho que é só nosso, mas que afecta a vida de tantos. Depois fica o impasse. A balança a pesar o sonho e a razão, o nosso querer e o querer de quem nos rodeia. Sonhar não é só magia. É, muitas vezes, coragem de ir pela estrada que nos aconselham a não seguir. É bater o pé na nossa vontade e acreditar que o queremos e sonhamos, vale a desilusão de nunca vir a acontecer, ainda que com isso possamos perder tanta coisa. 

Todos os anos, no meu aniversário, reflicto sobre isto. Fico numa espécie de apatia interna que não expresso e que só eu sei, porque sinto. Cheguei ontem aos vinte e oito anos. A idade não assusta, embora não me sinta com ela no corpo e muito menos na alma. O que me assusta é o tempo. O tempo que passa sem dar conta, sem te permitires desfrutar dos pequenos momentos que foram tão bons, mas que para o ano a tua memória não os recuperará. Assusta-me a velocidade vertiginosa com que cheguei dos zero aos vinte e oito, conseguindo passar em revista, na minha cabeça, todas as fases da minha vida. Assim, num ápice. Esta sensação de impotência perante o congelar de momentos, o parar do relógio, faz-me querer acelerar o passo, correr mais que o próprio tempo e ganhar-lhe terreno. Então sonho.

O sonho foi a única maneira que encontrei de me adiantar à própria vida. Não falo em sonhar como quem se senta numa cadeira de baloiço e se imagina numa outra vida diferente da sua. Não. Os meus sonhos têm luta. Têm fé e muitas vezes vontade própria. Hoje, com vinte e oito anos acabados de fazer, decido que se o coração manda seguir, é bom que siga, mesmo que isso interfira com a vida alheia, pela qual preciso deixar de me sentir responsável na medida do aceitável. Mesmo que isso me traga dissabores. O coração palpita mais forte quando o amontoado de tudo o que sonho se põe em fila indiana na minha cabeça e sinto-o feliz. Sinto-me feliz, antecipando a felicidade que fará explodir o meu peito, se eu chegar lá, ao lugar onde os sonhos se realizam.

Àquela que parte cedo.

De vez em quando um som estridente, ensurdecedor, acorda-nos deste limbo onde vivemos, julgando ter tempo para tudo, julgando sermos imortais. Não raras as vezes esse som fere muito mais do que os tímpanos, fere-nos por dentro, fundo, onde não conseguimos colocar curativo a não ser o mais antigo de todos, o tempo. A realidade brutal bate-nos de frente, sem aviso, sem sinal. Simplesmente te cai em cima, como um vaso mal colocado numa varanda de um quinto andar. E dói. Dói muito.

Começa a altura do "como?", do "porquê?", e a resposta é muda. Não há como, não há porquê. É o rumo da vida, o destino, o "porque tinha de ser". Tinha? A tua mente começa a questionar-se sobre todos os sentidos de todas as coisas. Sobre as chatices diárias sem importância mas que te enervam ao ponto de destacarem a saliente veia que tens na fonte. Todos os dias te stressas com o trânsito, com as chaves que não encontras, com a vizinha que disse mal de ti ou com o trabalho que tens amontoado e não sabes o que fazer com ele. Que importa isso tudo no universo da nossa vida? Pois é. Nada.

A vida é completamente aleatória. Um dia estás sentado a escrever sobre alguém que acaba de partir e no segundo seguinte podes ser tu o próximo. Não há justiça no reino que promete ser justo. Não há diferença entre o bom e o mau, o velho e o novo. Permitam-me questionar a mão de um suposto deus que ampara e protege, mas que ceifa vidas que tinham apenas começado a florescer. Permitam-me que me dirija a ele, a essa suposta divindade intocável, para lhe perguntar com que linhas se cose, com que leis se rege. Parece-me que não são as linhas nas quais escreve que estão tortas, mas sim a sua caligrafia divina.

Pois divinos são todos os que partem em direcção a algo, que, para nós, ainda mortais, é um buraco escuro, um ponto de interrogação, uma aflição de não saber onde. Divinos são aqueles que mal tiveram tempo de crescer, que fizeram planos para uma vida cheia, que pegaram nas primeiras pedras do seu castelo, para depois todo ele ruir em segundos, com um coração que deixou de bater. Divinos são eles, esses que, involuntariamente, empurrados para a onda definitiva da morte, nos deixam com as interrogações, com a tristeza e com a dor, mas, ainda assim, com a lição de que tudo isto é curto demais, injusto demais, cobarde demais, para não vivermos a vida, exactamente, como sonhámos viver.

A ela, a todos os que partem tão barbaramente cedo, um adeus sentido, um lugar no coração de quem os ama e sofre a ausência amarga da presença ainda sentida, e o desejo comum de um dia nos podermos encontrar todos novamente e perceber que afinal isto era só uma passagem

Amor de avó, avó de amor.

As rugas e o corpo franzino disfarçam bem a força e a garra que esconde. Os olhos verdes, são do mesmo verde brilhante que há anos conheço. O tempo passa por ela, leva-lhe quem amou, a vida é dura e ela não cai. Sorri. Sorri sempre, mesmo chorando. Invejo-lhe o ar feliz de menina de vinte anos, o "está tudo bem", mesmo quando todo o seu corpo estremece de dor. Conheço-lhe o ar abatido, mas impressiona-me a forma como encara os males que a vida lhe traz. A eles e a quem lhos faz, vira as costas por desprezo e mantém-se fiel a ela própria. Não liga aos pequenos contratempos da vida, mas não dá a outra face nem vira a cara a quem lhe faz mal, a ela, e principalmente aos seus. Sempre a conheci de sorriso na boca, mas o punho sempre esteve preparado a cerrar-se se a isso a obrigassem, sem medos nem pudores.

Não me lembro de a ver triste, mesmo quando a tristeza lhe esmagava o coração, nem tenho memória de me ralhar mesmo quando fazia a maior das asneiras. Ao invés, sorria, abanava a cabeça e encolhia os ombros dizendo "Coitadinha é criança, deixa estar". Não é santa, não, mas é a santa do meu altar. Não quero pensar que um dia vou perder o seu sorriso, os sorriso dos seus olhos, a palavra "filha" na sua voz. Não quero acreditar que um dia só me vão restar lembranças, e já me preocupo com o que hei-de eu fazer com a saudade que já sinto.

A minha avó faz hoje 78 anos, 50 anos e 5 dias nos separam, e neste dia só posso desejar que o seu corpo pequeno de coração grande, se mantenha forte a meu lado por muitos mais anos, que os meus filhos tenham a bênção de a conhecer, não só das histórias que vou por certo contar sobre ela, mas pela felicidade de receberem o mesmo colo que eu recebi, e que o verde dos seus olhos nunca se apague, mesmo que seja sob a forma de estrela no céu, como o é para mim, agora aqui na terra. Parabéns minha avó.

Ser feliz antes de o ser.

É-me difícil tomar decisões. Nem sempre o que nos sabe bem é bom para nós. Nem sempre o caminho mais curto é o mais fácil de percorrer. Nem sempre os impulsos do coração batem toda a razão. Mas eu gosto do que me sabe bem, gosto de atalhos, mesmo quando são agrestes, gosto, principalmente de escutar o meu coração, muito mais do que a minha cabeça. É por isso que não gosto de decidir. Sei o que quero, mas tudo, menos o coração, me diz para fazer o contrário. Então resta a eterna luta entre o que quero e o que não posso ter, porque é assim e ponto final.
Como detesto decidir. Fui educada a ser responsável, adulta e correcta comigo e com os outros, mas corre-me no sangue a liberdade. Não quero viver presa a convenções, a trabalhos das nove às cinco, à moral e aos bons costumes. Quero ser eu de alma e coração, que o corpo nada mais é, que um veículo que nos carrega para onde os dois primeiros nos levam, e enquanto este último durar.
Quero ser livre, mesmo na hora de tomar decisões, e não sinto que o seja. Tudo à nossa volta aponta os caminhos. "É assim porque sempre foi, e não hás-de ser tu a fazer diferente". Quero fazer diferente. Quero provar que sou capaz de viver aquilo que quero, mesmo que me digam que é difícil, que não devo, que é impossível. Que sabem os outros de mim senão as minhas feições? Que sabem os outros daquilo que quero e sou capaz? Que sabem eles, prisioneiros da própria liberdade, o que é ser livre de verdade? Eu sinto-lhe o cheiro quando fecho os olhos e me imagino a fazer tudo aquilo que ambiciono. E é nesse momento que sou feliz, ainda sem o ser por completo. É nesse momento que decido o meu próprio destino. Que o crio e que o realizo, antes de o ter realizado, projectando no futuro de mim mesma, o que desenho no presente da minha mente.
O que virá será o que espero e luto, basta manter acesa em mim a chama do acreditar. E eu acredito sempre.

Moldar-mo-nos com a vida.

Sei que não nasci na pele de quem sou de verdade e isso obriga-me ao esforço, constante, de me moldar ao sabor da vida e daquilo que a vida faz comigo. Fui crescendo e tornando-me aos poucos naquela que sou mas não fui, naquela que ainda não é, completamente, mas há-de ser. Vou devagar, apesar da vontade ser de correr. Vou lentamente, aprendendo a tornar-me naquilo que sou e sempre reprimi dentro de uma mente a explodir de ideias e desejos que achava não poder, não saber, não ter direito. Posso, sei, tenho.
Crescer em tamanho é fácil, é algo que nos acontece. Crescer em carácter e personalidade é a mais difícil tarefa que nos põem nas mãos, mal chegamos aqui, a este mundo ele próprio perdido. No curto caminho que percorri até hoje, cresci muito mais que a minha altura. Teria dez metros se os pudesse medir. Não, não sou maior que ninguém. Sei que sou melhor que muitos, pior que tantos, e que a caminhada tem de continuar pois tenho tanto para errar, tanto para aprender.
Este caminho de que vos falo, foi cravado de ervas daninhas, pedras e profundas armadilhas. Não foi um caminho sofrido, mas foi um pouco. Não sei se me tornei melhor, sei que me tornei atenta ao pormenor dos olhares, ao detalhe de uma simples frase, à subtileza de um pequeno gesto. Aprendi a diferenciar as pessoas, apesar de ainda não conseguir não julgar sem conhecer. Fraqueza minha. Tornei-me capaz de falar, de não mais calar aquilo que arranhava a garganta e descobri que a dor passa aos poucos depois do mal sair de dentro de nós.
Sou mais fria, mas mais capaz de amar quem, apenas com uma atitude, demonstra tanto amor por mim. Sou mais cautelosa, mas mais impulsiva se o que quiser mesmo for seguir os meus impulsos. Poucos me conhecem, muitos acham que me sabem de cor. Prefiro assim. Num mundo onde não se sabe onde termina a sua liberdade e começa a do outro, gosto de saber os meus limites, gosto de ler as pessoas que pensam me saber ler a mim, e não fazem ideia. Divirto-me e orgulho-me deste meu eu que ainda não moldei na totalidade, e tenho a bênção enorme que é, depois de tantos tiros ao lado, saber reconhecer só pelo palpitar do seu coração quem é, mesmo, sem um milímetro de dúvidas, meu amigo, meu companheiro.
É isto a vida. Crescer, errar, aprender, evoluir. Rodear-mo-nos de quem gosta de nós e, principalmente, de quem gostamos. E ignorar. A grande virtude de, mesmo alerta, saber ignorar quem nos quer mal, pois, no fundo, é só neles, esses que torcem tanto para tropeçarmos, que a tristeza vive.

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