"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
Ser forte, por vezes, é ter a capacidade de admitir as nossas fraquezas. Não ter pudor de despir a nossa alma de quaisquer preconceitos e depositá-la na mão dos outros que nos julgam sem saber. Ter coragem pode ser muito mais simples do que escalar o Evereste, ainda assim, tão complexo na inevitabilidade dos sentimentos que não queremos ter, mas que temos e enfrentamos. É ir além de nós próprios, da ideia pré-concebida que, ignorantemente, fomos construindo ao espelho que todos os dias olhamos, e que saiu frustrada, como a certeza de que nada nos abala, pois somos inabaláveis. Ter força é saber que somos vulneráveis. Admitirmos que essa vulnerabilidade nos colocou numa posição desconfortável, e agir sobre ela. Procurar auxílio, estender a mão pedindo ajuda e agarrá-la sem vergonha.
Não sinto vergonha. Já não sinto. Mesmo quando dizem que podia fazer mais, que devia fazer mais, que os passos que dou não são suficientes aos olhos cegos do mundo que acha que sabe o que é ser mais forte que a própria força. Não espero mudar a mente de quem me aborda, de quem me desdiz. É cansativo, desgastante, por vezes, apenas aborrecido. Simplesmente aprendi que fingir estar de pé quando ainda sinto o gelo do chão frio nas costas é matar-me aos poucos, é desfigurar-me por dentro ao ponto de não me poder reconhecer nunca mais. Não. Não me submeterei a uma mentira agradável aos outros, só porque a dor, assumida sob qualquer forma causa desconforto.
Então admito. Assumo a minha dor, recusando-me a suportá-la infinitamente, ainda que com a consciência de que o caminho se faz devagar e cauteloso. Não darei passos em falso porque para eles, os outros, é melhor assim, faz mais sentido assim. Não sou um brinquedo partido, cujo o sorriso implantado permanece num corpo mutilado. Sorrirei quando tiver que sorrir. E fá-lo-ei muitas vezes, porque me dá prazer, porque me aquece a alma e porque sou alegre, apesar de estar triste.
Tudo se resume a isso, mergulhar em mim e reconstruir-me, se não igual, melhor, certamente. E depois esperar. Esperar que quem aqui está continue por cá, mesmo sem entender, mesmo sem conseguir andar nos meus sapatos. Questionando-se pois é saudável, mas não julgando. Que continue por aqui quem me pertence e me aceita, mesmo sem no fundo aceitar o caminho que atravesso e não escolhi, mas que assumo agora de peito aberto, na esperança de lhe pôr termo. Quando a luz ao fundo do túnel brilhar, e eu sei que brilhará, contarei-os a todos, e serão todos esses, os que permaneceram, espelhando em mim o medo das suas próprias fraquezas, que contarei para o resto da vida. Desta vida sempre um pouco mais dura, sempre um pouco mais sábia.
É mais ou menos sorte ou azar. Mais ou menos destino traçado. O amor é como a vida, aleatório. Podemos passá-la ao lado do nosso amor, podemos passar por ela sem nunca nos termos cruzado com ele. Existem vidas desprovidas desse sentimento profundo que alimenta a alma e nos devolve sorrisos. Existem seres perdidos sem disso darem conta, caminhando por labirintos desenhados ao compasso do tempo, procurando, sem saberem o amor das suas vidas.
Uns vão encontrá-lo. Saberão de imediato que é aquele, que é o tal e que será para sempre. Outros demorarão a entender que a pessoa que lhes cruzou o caminho é aquela com quem partilharão todos os momentos da sua vida, porque assim dita o coração. Perceberão, eventualmente, e serão felizes como é suposto o amor nos fazer sentir. Depois existem os outros. Os tais sem rumo e sem amor. Partilharão um dia o mesmo espaço que ele, mas não saberão reconhecê-lo. Se reconhecerem não terão o tacto gentil que é necessário para não deixar um amor morrer como uma flor sedenta de água, e assim o perderão, sem darem conta que perderam também um pouco de si e do que poderiam vir a ser.
No meio de todos os encontros e desencontros com que nos deparamos ao logo da nossa existência, alguns de nós não farão parte de nenhuma destas histórias. Certo é que todos nós teremos, efectivamente, o amor da nossa vida. Aquele por quem o coração pára por segundos só de olhar o outro, aquele por quem as pernas ficam trémulas e a voz demora a fazer-se ouvir, aquele que nos emociona e nos queima as entranhas, tamanha é a sua dimensão. Sim. Todos, sem excepção, teremos um amor assim, arrebatador e infinito, para além da nossa perecidade. Acontece que nem todos vamos estar lá, no lugar onde os grande amores se cruzam, à hora que ninguém sabe qual é.
"Saber desistir, por vezes, é uma virtude." Não precisava que lho dissessem. Há muito que tinha desistido, há muito que aceitara que o amor às vezes é mesmo assim: acontece porque está destinado a acontecer, acaba porque o destino assim o quis. Não entendia, contudo a utilidade do amor que desperdiçara, que ainda desperdiçava. Nunca deixou de o amar, apenas seguiu a vida amando outros e guardou-o na caixinha mais distante da sua vida.
Já tinha desistido há tanto tempo que lhe parecia agora, nunca ter sequer tentado. Mentira ou verdade, o certo é que o amava. Uns dias mais, outros menos, mas para sempre. Por vezes esgueirava-se ela na sua vida ou ele na sua, a saudade apertava, o coração descompassava novamente, e a boca ficava seca de saliva e palavras. Por uma razão ou outra, caía sempre em si e voltava a desistir daquilo que nunca tentara na realidade.
Sabia que tinha nascido destinada a ele. Só a ele. Ele, porém, não o sabia ao certo. Soube que a desejara, que lhe deu tudo o que tinha no tempo efémero que partilharam, mas nada mais a fazia ter certezas que era amor a dois e não por um. Não tem coragem de confrontá-lo com essa pergunta que ficou sempre pendente de resposta e, no fundo, prefere assim. Sofre na dúvida, sofreria muito mais se soubesse que não tinha já lugar na sua mente e no seu coração.
Diziam-lhe que não causa dor o que não se vê. Como lhe doía a ausência do seu olhar. Como lhe amargava na boca as palavras doces que lhe queria dizer e ficavam presas na nulidade da sua presença. Sim, tinha desistido. Entregou as armas e virou costas ao amor da sua vida. Sentia culpa, por vezes. Resignação, quase sempre. O passado não se pode mudar, principalmente quando o presente foi construído com alicerces diferentes, alheios ao amor que poderiam ter vivido.
Hoje, adormece e acorda com uma breve visita ao seu rosto, aos seus olhos, à sua voz. Um acto agridoce, mas completamente inconsciente e involuntário, na vontade que a sua alma tem de se unir à dele, como acha que a vida previa que acontecesse. Não aconteceu. Não sabe se algum dia o destino se cumprirá. Sabe apenas, como certeza inabalável, que irá amá-lo para sempre. E sempre é demasiado tempo para viver uma presença, que no fundo é ausência, dolorosa e constante.
Apeteceu-me começar 2013 com um texto de amor. Existem tantas formas de amar. Há medida que os anos vão passando vou-me apercebendo que é sentimento raro, se verdadeiro. Apercebo-me também com o passar dos dias que há amores que temos desde sempre e nem demos conta disso, até que um dia o coração desejou ter esse amor por perto.
Crescemos mais separados que juntos. Quando juntos odiávamo-nos, assim o fazíamos questão de dizer e demonstrar com pancada. Quando afastados escrevíamos cartas, em papel perfumado, para não deixarmos dúvidas que gostávamos tanto um do outro. Hoje sabemos que o amor e o ódio são divididos por um pedaço de linha frágil e que um se materializa no outro num pestanejar. Assim foi connosco.
O destino quis que o tempo em comum fosse pouco no tamanho da nossa vida. A vida quis que a distância entre nós fosse para lá do que os pés aguentam caminhar. Assim crescemos, partilhando o mesmo sangue, em pedaços de mundo diferentes. Nesse intervalo de tempo, amei outras pessoas, outros sangues, pedaços de outros que não eu. Deixei que o tempo, a distância e a idade tão curta ditasse de quem eu gostava e sentia falta.
Hoje sei. A distância não nos afastou, uniu-nos. O tempo que partilhámos não foi curto e efémero, mas valioso por cada segundo. As lembranças são mais vivas do que muitas outras, com tantas outras pessoas, precisamente por isso, porque tínhamos pouco de cada um para sorver, e sorvíamos ao máximo. Hoje sabemos, rimos e relembramos cada pedaço da nossa história por capítulos. Cada doce recordação, cada gargalhada pelo ódio que não sentíamos.
Cada vez mais vamos vendo gente virar-nos as costas, negando-nos o amor que tomámos como certo. Gente a quem demos todo o nosso tempo, sem distância que nos apartasse. Nós não. A distância é a mesma, o tempo talvez ainda menor. Mas o amor? O amor cresce para lá do tamanho do coração e queremo-nos bem sem precisar de palavras para o demonstrar.
É de amores assim que o amor se alimenta. E o nosso pode medir-se pelo tamanho do abraço que tomamos um do outro, por cada vez que a distância se torna nula. Que saudades, meu primo.