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2 Steps Back

"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego

2 Steps Back

"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego

As dores que não se vêem.

É sofrer sem saber onde te dói. É doer sem perceberes porquê. As lágrimas ganham vida própria e o desespero dá-te como desesperado. Não há mal neste deserto de coisas boas, apenas areais de ilusões terríveis, sem oásis para matar a sede de calma que a tua alma implora. O teu corpo está cravado de feridas invisíveis cujo ardor queima até ao osso. Queres tratá-las, curá-las, travar de vez o desespero que alastra na tua pele. Se ao menos soubesses onde elas estão, se ao menos as conseguisses ver.

Imagina-te acorrentado, sem margem de manobra para te moveres. O metal a ferir-te a pele por cada vez que tentas sair do lugar onde te colocaram à revelia. Agora calça os meus sapatos, mesmo que não te sirvam, mesmo que aches que andar neles é a coisa mais banal que te desafiaram a fazer. Não existem correntes a prender-me os movimentos, mas dói a cada passo que dou. Sentes? É confuso ao início. A sensação sufocante de que algo está errado, de que o teu corpo paralisou, de que a tua mente não está mais em ti. Depois, a continuidade persistente desse sentimento marterizante. Outra e outra vez, até algo que te parece ser desde sempre. É aí que te descobres lá no canto, percebes que as correntes que sentes nos pulsos são apenas o teu medo materializado. Recolhes-te, refugias-te, proteges-te da maneira mais primitiva que conheces. Já sentes?

O mundo manda-te avançar, mas a tua memória acautela-te, inconscientemente, que da última vez a dor trespassou-te como flechas apontadas a cada músculo do teu corpo. Acobardas-te numa cobardia da qual não tens culpa, embora também te culpem por ela. No fundo, por algum acaso do destino, esta prisão a que chamam fraqueza encarcerou-te a ti e não aos que te mandam fazer peito à luta.

Sabes melhor que ninguém que só a persistência quebra barreiras, mas também conheces bem o sabor do sofrimento por cada vez que persistes. Não é por acaso que aquele que tropeçou e caiu, olha com mais atenção e cautela o caminho que tem pela frente. Ainda assim, tens a noção e também a esperança que há-de chegar o dia em que vences a batalha e todas as feridas serão apenas cicatrizes em forma de lições. Porém, neste momento, ainda encolhido no canto seguro que aprendeste a criar, tudo o que queres é que os outros sintam a tua dor para te compreenderem, em vez de ajudarem a cravar as farpas da tua insegurança mais e mais fundo, na ignorância das frases que profetizam.

Sofrer a verdade.

Não. A palavra chocou com o seu corpo com violência, entrou por cada poro da sua pele, percorreu-lhe as veias e explodiu no coração. Pelo menos foi essa a sensação de ouvir, com firme frieza, aquilo que sempre soube mas que nunca lhe tinha sido dito. Não. A esperança morreu-lhe nas mãos, segurou as lágrimas que quiseram denunciar-lhe a dor, mas manteve-se inerte. Que sofresse calada, que engolisse o choro, que aguentasse cada facada que o seu coração parecia sofrer por cada vez que palpitava, pois a culpa, essa, era apenas sua.

Sempre soube que nunca iria viver a história que desde muito cedo escreveu na sua cabeça. Teve provas de que o príncipe era apenas um lacaio fingindo-se de rei. Ainda assim, por teimosia ou inocência, deixou crescer um amor sem alicerces, apoiado num chão podre, iminente da derrocada. Cresceu para além do óbvio, do basta, do não faz sequer sentido. Deixou crescer, porque viver na ilusão dava-lhe a esperança inventada de que, agora não, mas um dia o destino cumprir-se-ia. Cumpriu-se.

Sozinha na cama remói a palavra. Deposita nela o ódio que sente por ele, estando perfeitamente consciente de que não existe ódio onde não houve um dia amor. Nessa linha ténue entre os dois sentimentos tenta adormecer, sem ilusões de que o seu rosto não lhe apareça, novamente, nos seus sonhos. Sofreu na incerteza, adiando a verdade, porque sabia o quanto ia doer. Contorce-se agora com as duas dores, a do tempo perdido e a do tempo que nunca ganhará.

 

A inutilidade circunstancial do amor.

De que me serve este amor condenado à inutilidade? De que me serve este ardor crescente no peito, este nó na garganta quando o teu rosto se afigura espontâneo na minha mente? Pergunto, para quê tamanha paixão desperdiçada no deserto das almas que se perdem por não encontrarem a sua metade? Encontrei-te e estou lá na mesma, deambulando sem destino, esperando já sem esperança ter-te comigo para o resto da vida. Vão. Vão é este anseio de te ter, este querer mais que o próprio querer. Que faço eu com o pulsar descompassado de um coração que já nem sequer é meu? É teu. A minha vida vive na tua, ainda que incompreensivelmente deserta de ti.

É cansaço este tremor que sinto na alma. Esta dor fina em cada célula do meu corpo. Sim, o amor dói. Dói, fisicamente, sem parar de doer. Uma dor apenas apaziguada pelas memórias e ilusões que a minha mente tem e cria de ti. Quantas e quantas vezes, como quem toma analgésicos, recorro às lembranças ténues que tenho do teu rosto, do teu corpo. Quantas vezes não ensaio conversas que nunca acontecerão, enquanto finjo que o que sinto é o teu cheiro, enrolado no meu abraço, para sempre.

Basta. Clamo tantas vezes. Quem dera poder apagar-te de mim, quem dera que nunca os meus pés tivessem pisado o mesmo caminho que o teu, e não me teria agora a mim, sozinha num labirinto infinito, onde estás em cada canto, mas nunca perto para te poder encontrar. Como gostava de te oferecer este amor embrulhado em papel perfumado. Ficarias com ele, farias o que quisesses desse sentimento que a mim não me serve para coisa nenhuma. Livraria-me do fardo que se tornou o sentimento mais nobre que alguém pode sentir.

Toma. É teu. Faz dele o que quiseres. Mata-o se isso me curar. Não me importa o rumo que levará, não me importa os danos que causará a este coração já sem norte. Rasga-o em mil pedaços, redu-lo a cinzas e lança-o ao vento. Dou-te esse poder, sobre este sentimento que não quero ter mais. E ao fazê-lo, não me julgues, não te movas, não digas nada, a menos que me saibas explicar de que me serve este amor, afinal.

Juntos num só coração.

Não deixo de esboçar um sorriso triste, ainda assim um sorriso, por cada vez que olho esta imagem. Acredito que não foi ao acaso que a máquina disparou naquele exacto momento, nesta forte cumplicidade, neste relevo de emoção que quase nos transporta para aquela sala, para os instantes que se seguiram depois e que nunca irei saber quais foram.

Se o amor fosse uma imagem, era esta a imagem que definiria o amor. Pele com pele como nunca mais foi possível, um apertar terno como que para sorver cada pedaço de vida daquele ser que não veria crescer, quase que uma despedida inconsciente, uma prova de amor eterno para preencher um vazio sem fundo que a sua partida iria deixar. Se alguma vez se questionou se foi desejado, amado, querido, esta herança acalenta-lhe o coração dorido e responde-lhe a todas as perguntas com um enorme "sim". Sim ele amava-te de corpo e alma e estaria contigo sempre, assim o destino tivesse mudado o sentido.

Hoje a figura que o espelho lhe retorna é, exactamente, esta. O mesmo tom de pele, o mesmo corpo esguio, o rosto idêntico sem um traço distinto, como que copiado a papel vegetal. Faz-me pensar que nada acontece ao acaso. Partiu mas vive nele, vive com ele, reflecte-se nele. E quem pode jurar que não está agora, ainda a segurá-lo nos braços, num outro tempo que não o nosso, numa outra dimensão utópica onde pode permanecer assim, amparando o seu filho eternamente, sem passado, presente ou futuro que os separe desta cúmplice e sagrada união. 

 

 

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