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2 Steps Back

"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego

2 Steps Back

"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego

Nas águas do Tejo permaneces.

Naquela noite sonhei contigo. No fundo sabia que não viverias mais nenhuma. Dormi ansiosa, estava contigo ainda que te soubesse sozinho. A manhã demorou a chegar e passou lenta, como se estivéssemos numa outra dimensão onde o tempo se arrasta e a respiração se sustem. A vontade de te ter vivo opunha-se às evidências e agarrámo-nos à pouca esperança que morria contigo.
Nunca vou esquecer o momento em que percebi que tinhas partido. Gritos dilacerantes de dor apertaram-me o coração e disseram-me o que as palavras calaram. Já não estavas connosco, já não receberia resposta à palavra avô. Há muito que tinha desejado que o teu sofrimento terminasse ainda que soubesse que o nosso começaria, mas nunca, nos meus mais remotos pesadelos, adivinhei uma dor tão forte e profunda. Despedir-me de ti foi a maior provação pela qual a vida me obrigou a passar. Olhar-te sem vida, enquanto descobria aos poucos que nada mais seria como antes, feriu-me incuravelmente. Depois, a amargura das perguntas às quais nunca teria resposta. Será que tiveste medo? Estarias sozinho quando a morte chegou? Chamaste por nós, meu avô? Sempre achei que a morte é solitária, que mesmo rodeado de gente, quem parte vai na solidão do momento que só ele acaba de descobrir. Ainda assim, despedaçou-me o coração não te poder dar a mão no momento em que deste o teu último sopro de vida.
Chorei e sorri por ti. Olhei-te vezes sem conta, como se, inconscientemente, quisesse guardar o máximo de ti. Quando te levaram para sempre, a ausência do teu corpo que nunca mais veria causou-me uma nova dor, mais profunda ainda, como se a realidade tivesse levantado o seu derradeiro véu. Desfiz-me por dentro. Não sei se passaram segundos ou minutos, pois o sofrimento tem este sádico poder de desacelerar o tempo, lembro-me apenas de regressar a casa e olhar o Tejo e as Lezírias. Não acredito na vida para lá da morte, ainda que ache que isso ameniza a dor, porém, naquele momento em que as lágrimas me lavavam o rosto a tua presença acalmou-me. Parei de chorar e olhei infinitamente o rio até não estar mais ao meu alcance e então percebi, sem o confessar a ninguém e sem qualquer lógica a suportar esta minha certeza, estavas ali.

A ferida aberta não parou de doer, e conformo-me com a ideia de que só as mãos suaves do tempo farão, não com que esqueça, mas que consiga lembrar com uma doce saudade. Por agora, conforta-me saber-te aqui tão perto, ao meu alcance sempre que te quiser sentir, no mesmo sítio onde vieste ao mundo, nas águas onde te sentias pleno e onde permanecerás para sempre, na paz que só os anjos merecem receber. Até sempre, meu avô.

 

* Fotografia tirada a 20 de Dezembro de 1990.

Peço ao tempo que me devolva.

Afasto-me do tempo que corre. A ignorância do que a vida me trará a seguir, o medo iminente de falhar o passo que quero dar, faz-me virar costas àquilo que sou e respeito. Na verdade o barco é o mesmo para todos nós. Não sabemos o que a próxima hora nos trará e quase nunca estamos preparados para o que ela traz. Não estava preparada para horas assim. Horas que se tornaram dias, que se tornaram longos e inertes meses. Têm sido, sobretudo horas doloridas em mim, que já não consigo disfarçar o peso dos seus minutos agrestes.

Queria poder pegar nos ponteiros e colocá-los num sítio confortável, sem medos, sem perguntas, sobretudo, sem angústias de qualquer espécie. Espero por dias assim. Que me preencham de bem e que mantenham enterrado o mal. Olho para frente e sei que vai passar. Não é à toa que dizem que a hora mais escura do dia é aquela que antecede o nascer do Sol. Espero, não tão paciente como gostaria, que o Sol nasça em mim, novamente.

Sinto-me adormecida na zona de conforto mais desconfortável que existe à face da terra. Não sou eu. Não sou eu. Não sou eu. Repito todos os dias, enquanto vasculho no lixo da vida onde estou. Estou aqui, mas não estou. Sou alegre, quem está não é. Sou forte, quem está fraqueja. Sou corajosa, quem está tem medo de tudo e de nada. Sou de luz, quem está escurece com o passar dos dias.

Dou por mim a desejar adormecer e acordar quando tudo tiver passado, como o despertar de um sonho mau que não nos deixou descansar à noite. Não descanso na noite que vivo ao que me parece, agora, desde sempre. Estou exausta de mim. Exausta deste estado que não sei explicar e que quase ninguém sabe entender. Arrasto-me nos dias sem ver em nenhum deles qualquer propósito. Levanto-me e deito-me com o vazio de quem não se cumpriu mais uma vez e muitas vezes choro em silêncio a vergonha que sinto por não conseguir ser quem sou de verdade.

Quero sair debaixo de chuva e na solidão das multidões me sentir plena e segura. Quero me levar para onde o coração desejar sem que para isso precise de alguém que me carregue no colo. Quero agora, mais do que alguma vez ansiei, fechar os olhos e sentir-me em paz, sabendo que nada mais me atormenta. Quero-me, novamente, tal e qual como sempre fui. Já de joelhos imploro piedade à vida e peço ao tempo que me devolva.

Deixar partir.

Se escrever palavras doces te escusasse desse sofrimento que se reflecte em nós, escreveria a vida inteira, até os dedos sangrarem, até não existirem mais formas de dizer o amor. E a cada palavra sentirias o meu beijo no teu rosto enrugado, e a cada beijo a tua dor passaria como se nunca tivesse existido. Pudesse eu contar a tua história de maneira diferente e aqui me terias, agarrada às folhas de papel perfumado, onde a tua vida merece permanecer, horas e horas, dias a fio, escrevendo-te para sempre, para que para sempre vivesses.

Não viverás. Dou por mim a desejar que seja breve, como uma leve brisa te levando para um lugar calmo e infinito onde não existe nada para além do silêncio e a paz que mereces. Ou quem sabe para junto dos teus por quem chamas agora, tantas vezes. Talvez encontres junto deles o propósito da tua vida, mais sofrida que generosa, mais triste que feliz. Imagino-te a contar histórias para sempre, escutado com carinho e atenção e já sinto saudades das vezes que não as vou ouvir mais.

Sempre me ensinaram que o amor não é egoísta e querer-te connosco, agarrado a uma vida que te foge a cada segundo, faria de mim a pessoa mais cobarde do mundo. É porque te amo, então, que te suspiro ao ouvido, como um abraço de despedida que nunca vamos poder dar: podes ir, avô. Vai sem medo, que cumpris-te o teu dever. Vai em paz que é em paz que mereces ficar. Nós por cá ficaremos até que nos seja permitido, sempre contigo guardado no coração, contando a tua história misturada nas histórias que a tua voz nos contou. Podes ir, meu avô. Podes ir.

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