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2 Steps Back

"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego

2 Steps Back

"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego

O truque é respirar.

Escrevo enquanto o coração me bate violentamente contra a garganta provocando uma dor apertada e angustiante. Fecho os olhos e respiro pelo nariz, expiro pela boca. Encho a cabeça de pensamentos leves na esperança que a confusão instalada disperse como um amontoado de nuvens negras a darem lugar ao Sol.
O truque é respirar. O truque é sempre respirar. Mesmo quando o ar parece não chegar aos pulmões, mesmo quando podia jurar que uma mão invisível me sufoca, respiro. Respiro mesmo que respirar doa no peito, no corpo, em cada célula. Mesmo que a mente me desespere e a visão me falhe.
Desistir é tão fácil. Deixar-me cair na ilusão dolorosa de que não existe força maior que aquela que me derruba é quase inato. Lembro-me porém, que essa força sou eu. Só eu me posso erguer, ainda que caia no segundo seguinte. Só a mim me cabe caminhar mesmo que o corpo e alma me doam, mesmo que o destino pareça ausente. Respirar. Basta-me respirar.

De um mês para sempre.

Não quero transformar este dia numa sofrida contagem das horas da tua ausência. Não quero marcar o calendário com a tua perda e perceber há quanto tempo não te vejo ou ouço a tua voz. Porém hoje é inevitável, hoje ainda é muito cedo para não dizer "Já passou um mês." Tento não falar de ti porque isso me relembra que não te tenho, por outro lado não houve dia nenhum que não tenha dito aquele que para mim sempre será o teu nome, "avô". Tudo nos lembra o que dizias, o que fazias e hoje a amplitude das tuas atitudes, da tua integridade, é maior,  é mais profunda. Dizem que só damos valor ao temos depois de o perdermos. Foi e não foi. Demos-te o valor que soubemos dar, ainda assim descubro agora que eras muito mais do que aquilo que sempre admiti que fosses.

Coisa estranha esta de perder alguém. Felizmente, nunca a morte me tinha batido tão perto, tão aqui. Questionei durante muito tempo como seria isso de fazer luto, de sentir falta, de perceber que é para sempre. Ao longo deste mês fui aprendendo que a frase "É a lei da vida." é mais que circunstancial. É facto, certeza inabalável. Nesta vida vamos perdendo até sermos nós a partir. E fica tudo igual. O teu cadeirão continua lá, a tua cama agora sem o calor do teu corpo está no mesmo sítio, a piscina onde me ensinaste a nadar continua a abrir todos os verões e o Tejo onde vivias continua a correr, agora contigo nele. Fica tudo igual, diferente na tua ausência. Tudo igual, doendo na garganta as palavras que não te vamos mais dizer.

Dizem que a primeira coisa que esquecemos é a voz. Tenho repetido a tua na minha cabeça muitas vezes, dizendo o meu nome como só tu sabias dizer, para ver se me lembro e ainda não percebo como é possível um dia esquecê-la. Tenho o teu rosto gravado em mim e as tua mãos inesquecíveis guardadas no coração. Já concluí que a saudade será eterna e por um lado ainda bem. Mereces ser lembrado sempre por aqueles que tanto amaste.

De ti quis guardar apenas uma coisa, o teu velho boné com que trabalhaste no campo, com que me foste buscar à escola, com o qual entraste pela primeira e única vez na minha casa e onde vi pela última os teus olhos brilharem de orgulho e alegria. Está aqui ao meu lado enquanto escrevo, e assim permanecerá sempre. Como tu estarás, por toda a minha vida, até que um dia me junte a ti.

 

Para ser diferente sê tu próprio.

Cresci numa época em que o meu maior problema era ser gorda e era com esse tipo de coisas que os putos implicavam. Éramos todos diferentes e isso estava implícito, dado adquirido. Uns eram burros, outros espertos, outros armados em espertos, outros gays, outros magros de dar dó e eu era gorda. Paciência, azar o meu. Não comesse uma lata de bolachas a cada serão, acompanhada da telenovela.

Hoje não é assim. Olho para trás e vejo uma simplicidade em tudo, até no facto de todos os dias me chamarem badocha por vestir três tamanhos acima do suposto. Estou cá, não morri e ainda hoje me rio por nem saber o que que queria dizer aquilo que me chamavam. Éramos inocentes até quando tentávamos ser maus. Éramos educados até quando achávamos que estávamos a ser rudes. Hoje? Hoje é tudo complicado e não queria ter de crescer no meio do nó cego que esta juventude não desata. Eles fumam droga à porta da escola, elas usam decotes que se misturam com o umbigo e saias que se confundem com o top. Eles andam com eles e elas andam com elas e fazem tatuagens sobre o amor eterno que não vai durar um mês. Vão ler nas entrelinhas "preconceito". Não materializo essa palavra na minha vida onde cabem pessoas de todo o tipo, sendo que a única triagem que faço é a amizade que me dão e que eu tento retribuir na mesma proporção. Dou por mim, no entanto, a utilizar o velho chavão "a juventude está perdida". E está.
A juventude acha que ser normal é aborrecido, mas se lhes chamam anormais temos o caldo entornado. Não querem rótulos mas é vê-los a cortarem o cabelo de maneira diferente, igual a todos os outros que não querem ser cordeiros. É vê-los a assumirem uma sexualidade dita irreverente porque tudo à volta os convida a esticar a corda, ainda que um dia percebam que não foram fiéis a eles próprios. Querem ser algo que não são, para se distinguirem nesta sociedade que apelidam de cruel e intolerante, quando são eles os primeiros a sê-lo, por toda a vez que se viram contra tudo o que é, à partida, convencional.
Esta juventude quer percorrer de uma só vez todos os caminhos que a vida lhes oferece. Querem que o amanhã seja hoje, o futuro agora. Eles e elas pressionam-se uns aos outros para serem diferentes, mas não se apercebem sequer, que, contas feitas, acabam por se tornar tristemente iguais.

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