Ser.
Quero a paz de uma manhã igual. A leveza de um despertar tão vazio que transborda calma. É isso, um acordar ligeiro, sem a ânsia de correr para viver, mas vivendo sem que isso me aperte o peito. Perceber que a eternidade não nos brindará o corpo faz-me querer fazer mais que sobreviver, que é isso que faço. Ter a perfeita noção de que posso ser muito mais que aquilo que me permito ser, dá-me vontade de arrancar as amarras com que me entretenho a apertar todos os dias, um bocadinho mais, até sentir o coração bater em todas as partes de mim.
Tenho medo de perder, de falhar, de cair. Mas aprendo aos poucos que o medo não me salva, pelo contrário, penitencia-me por não seguir o caminho que o coração segredou ao ouvido. O medo é útil até ao ponto em que não nos deixa viver o que nos é destinado, aquilo a que nos podemos propor, porque somos, efectivamente, capazes, e transforma-nos em marionetas que vai carregando com ele.
Já perdi e irei continuar a perder. Já falhei e não acho que tenha sido a última vez. Caio por cada vez que me levanto, mas levantando-me sei que não é no chão o meu lugar. Amparo-me nas minhas paredes de ferro, que tenho algumas, e vou caminhando, às vezes trôpega outras com uma altivez que quase não me reconheço. Mas vou. E irei sempre, caminhando e acreditando a cada fôlego de vida, que o futuro tem tanto de aleatório como de escrito nas páginas do destino que o acaso escolheu para mim.
