Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

2 Steps Back

"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego

2 Steps Back

"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego

A estrada.

Foi como o acordar abrupto de um sonho bom. A tua ausência definitiva marcou todos os espaços agora vazios, tão cheios de ti, e todas as palavras não ditas ficaram para sempre suspensas em nós como lembrete da saudade. O tempo estagnou, não havia futuro sem que estivesses nele, só passado, imerso nas recordações eternas que construíste connosco. Alimentámo-nos delas, como se, de alguma forma, tivessem o poder de te materializar e eternizar aqui, junto de nós.

Os dias continuaram a nascer, o Sol a brilhar, o rio a correr, mas um pedaço de nós tinha partido contigo, como se as nossas vidas se limitassem agora ao simples e inato acto de respirar. A vontade de desistir era maior que a de continuar, como se os nossos pés estivessem presos ao chão que nos negávamos a caminhar. Foi num desses dias vazios que te sentimos, que a tua voz nos sussurrou ao ouvido e nos ensinou o caminho mais uma vez, como sempre fizeras por toda a tua vida.

Desistir do que podemos ser seria desrespeitar-te se dedicaste a tua vida a construir a estrada que pisamos. E é por ti, para ti que “enquanto houver estrada para andar, agente vai continuar.”

 

(Texto participante no 3º desafio do 18º Campeonato Nacional de Escrita Criativa).

O velho pelo novo.

Chegou devagar ao destino que não sabia qual, mas que percebeu de imediato quando o viu ao longe. Branco da moda, linhas arrojadas, jantes polidas e ar arrogante de quem é novo e acha que a estrada é infinita. Tinha tanto para lhe ensinar, sabia porém que o momento em que se cruzariam iria ser breve e derradeiro para ele.

Parou onde o mandaram, a dois ou três passos do seu sucessor. A indiferença com que o desligaram e lhe bateram as portas teria doído se conseguisse sentir. Limitou-se a observar o entusiasmo com que o seu dono se encaminhava para a sua nova aquisição, a mesma com que, em tempos, o viu caminhar para ele. Questionou-se se o outro, o novo e imaculado, imaginava o que viria a seguir, depois da juventude fugaz passar em passo de corrida. Depois da paixão pelo que é novo, viria a frustração do que se tornou usado, mesmo que não fosse, ainda, velho. Começariam as pancadas, as amolgadelas e o desamor crescente por parte de quem nos achou, um dia, perfeitos.

Quis avisá-lo, fez-lhe sinais, mas os olhos cegos de deslumbramento não permitiam ver o monte de sucata que sabia que se tinha tornado. Desistiu concluindo que, por vezes, a ignorância é o melhor local para se permanecer. Local que abandonou no dia em que aprendeu que tudo é circunstancial e que basta uma pequena mossa para cairmos do pedestal.

 

(Texto participante no 2º desafio do 18º Campeonato Nacional de Escrita Criativa).

A carta.

“A carta estava pousada em cima da mesa e estava, estranhamente, assinada por ela.” A caligrafia tosca e inconfundível não permitia duvidar que tinham sido as suas mãos a escrevê-la. Quis pegar-lhe. Teve medo. Os pés pregados no mesmo chão onde a encontrou caída, no último dia da sua vida. Tinha o seu olhar vazio gravado na mente, a culpa das últimas palavras, lançadas na acidez do momento, a pesar-lhe no coração.

Caminhou hesitante e trémula até à cadeira mais próxima e sentou-se em frente à carta. Perdeu a noção do espaço, do tempo, como se de alguma forma ela estivesse ali de novo, fitando-a com o sorriso triste e forçado com que sempre a conheceu. O egoísmo e cobardia de colocar termo à própria vida doía-lhe ainda mais que a sua ausência, e o perdão que não lhe conseguia ceder tornava-a, de alguma forma, tão amarga quanto ela sempre fora em vida.

Com a ponta dos dedos arrancou a cola que selava o envelope e lá dentro encontrou um pedaço de caderno rasgado à pressa. Sentia o pulsar do seu coração em todo o corpo e a ânsia adormecida do porquê subia-lhe agora à garganta como veneno. Fechou os olhos e respirou fundo, como quem toma coragem. O que leu a seguir apertou-lhe o peito e por momentos podia jurar que o coração parou de bater. Um misto de emoções assolaram-lhe a alma e pela primeira vez desde que a perdeu, as lágrimas lavaram-lhe o rosto.

Não se apercebeu quanto tempo ali ficou, mas era já noite quando ergueu os olhos da breve carta. Estava, finalmente, em paz, de pazes feitas com aquela que teve o poder de lhe dar a vida e o direito de decidir quando terminar a sua.

 

(Texto participante no 1º desafio do 18º Campeonato Nacional de Escrita Criativa).

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D