"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
Foi como o acordar abrupto de um sonho bom. A tua ausência definitiva marcou todos os espaços agora vazios, tão cheios de ti, e todas as palavras não ditas ficaram para sempre suspensas em nós como lembrete da saudade. O tempo estagnou, não havia futuro sem que estivesses nele, só passado, imerso nas recordações eternas que construíste connosco. Alimentámo-nos delas, como se, de alguma forma, tivessem o poder de te materializar e eternizar aqui, junto de nós.
Os dias continuaram a nascer, o Sol a brilhar, o rio a correr, mas um pedaço de nós tinha partido contigo, como se as nossas vidas se limitassem agora ao simples e inato acto de respirar. A vontade de desistir era maior que a de continuar, como se os nossos pés estivessem presos ao chão que nos negávamos a caminhar. Foi num desses dias vazios que te sentimos, que a tua voz nos sussurrou ao ouvido e nos ensinou o caminho mais uma vez, como sempre fizeras por toda a tua vida.
Desistir do que podemos ser seria desrespeitar-te se dedicaste a tua vida a construir a estrada que pisamos. E é por ti, para ti que “enquanto houver estrada para andar, agente vai continuar.”
(Texto participante no 3º desafio do 18º Campeonato Nacional de Escrita Criativa).
Chegou devagar ao destino que não sabia qual, mas que percebeu de imediato quando o viu ao longe. Branco da moda, linhas arrojadas, jantes polidas e ar arrogante de quem é novo e acha que a estrada é infinita. Tinha tanto para lhe ensinar, sabia porém que o momento em que se cruzariam iria ser breve e derradeiro para ele.
Parou onde o mandaram, a dois ou três passos do seu sucessor. A indiferença com que o desligaram e lhe bateram as portas teria doído se conseguisse sentir. Limitou-se a observar o entusiasmo com que o seu dono se encaminhava para a sua nova aquisição, a mesma com que, em tempos, o viu caminhar para ele. Questionou-se se o outro, o novo e imaculado, imaginava o que viria a seguir, depois da juventude fugaz passar em passo de corrida. Depois da paixão pelo que é novo, viria a frustração do que se tornou usado, mesmo que não fosse, ainda, velho. Começariam as pancadas, as amolgadelas e o desamor crescente por parte de quem nos achou, um dia, perfeitos.
Quis avisá-lo, fez-lhe sinais, mas os olhos cegos de deslumbramento não permitiam ver o monte de sucata que sabia que se tinha tornado. Desistiu concluindo que, por vezes, a ignorância é o melhor local para se permanecer. Local que abandonou no dia em que aprendeu que tudo é circunstancial e que basta uma pequena mossa para cairmos do pedestal.
(Texto participante no 2º desafio do 18º Campeonato Nacional de Escrita Criativa).
“A carta estava pousada em cima da mesa e estava, estranhamente, assinada por ela.”A caligrafia tosca e inconfundível não permitia duvidar que tinham sido as suas mãos a escrevê-la. Quis pegar-lhe. Teve medo. Os pés pregados no mesmo chão onde a encontrou caída, no último dia da sua vida. Tinha o seu olhar vazio gravado na mente, a culpa das últimas palavras, lançadas na acidez do momento, a pesar-lhe no coração.
Caminhou hesitante e trémula até à cadeira mais próxima e sentou-se em frente à carta. Perdeu a noção do espaço, do tempo, como se de alguma forma ela estivesse ali de novo, fitando-a com o sorriso triste e forçado com que sempre a conheceu. O egoísmo e cobardia de colocar termo à própria vida doía-lhe ainda mais que a sua ausência, e o perdão que não lhe conseguia ceder tornava-a, de alguma forma, tão amarga quanto ela sempre fora em vida.
Com a ponta dos dedos arrancou a cola que selava o envelope e lá dentro encontrou um pedaço de caderno rasgado à pressa. Sentia o pulsar do seu coração em todo o corpo e a ânsia adormecida do porquê subia-lhe agora à garganta como veneno. Fechou os olhos e respirou fundo, como quem toma coragem. O que leu a seguir apertou-lhe o peito e por momentos podia jurar que o coração parou de bater. Um misto de emoções assolaram-lhe a alma e pela primeira vez desde que a perdeu, as lágrimas lavaram-lhe o rosto.
Não se apercebeu quanto tempo ali ficou, mas era já noite quando ergueu os olhos da breve carta. Estava, finalmente, em paz, de pazes feitas com aquela que teve o poder de lhe dar a vida e o direito de decidir quando terminar a sua.
(Texto participante no 1º desafio do 18º Campeonato Nacional de Escrita Criativa).