"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
Sempre acreditei que um dia o tempo e a vida nos voltariam a unir. Confesso que não consigo colocar em números as horas que senti a tua falta e chorei a tua ausência, mas existia comigo uma eterna e inabalável certeza de que, de alguma forma, o destino se encarregaria de te colocar no meu caminho de onde, no fundo, nunca chegaste a sair.
Habituei-me a viver no meio das memórias, alimentava-me delas, acabando por esquecer que a verdadeira razão para a distância que nos separava não era mais que a tua escolha de não me ter a teu lado. O tempo tem tanto de bom, quanto de mau, e se por um lado atenua martírios, no nosso caso fez-me esquecer a amargura que me trazia este amor pela metade. Estar sem ti durante tantos anos ensinou-me a acreditar na mentira de que o que tínhamos era doce e terno como só os amores verdadeiros podem ser.
Agora estás aqui, tal como previ, cruzando-te na minha vida, reclamando o espaço que te guardei. Olho e comparo-te com as recordações que fui criando, apercebendo-me que não é a ti que amo, não és tu que desejo, mas é antes expectativa de te poder ter que me move e me mantém à tona. Então fico inerte, guardo este segredo só meu, fecho os olhos e faço-te à imagem de mim mesma. Só assim seremos, permaneceremos, para sempre.
Nunca mais te verei. Foi essa a primeira coisa que pensei quando a notícia chegou. Não mais conheceria a melodia da tua voz a contar histórias repetidas e infinitas em mim, nem sentiria o toque das tuas mãos enrugadas enquanto te amparava no teu temor de cair. Não percebi de imediato a amplitude do momento e da palavra. Na verdade, cada segundo passou devagar, como se apenas o meu corpo ali estivesse e a minha alma continuasse à tua cabeceira pedindo-te calma e paciência naquela hora derradeira. Foi mais tarde, quando te deixei de poder sentir, que o significado de tudo se tornou dolorosamente claro. Tinhas deixado de existir para sempre.
Dizem que o tempo ameniza a dor, levando memórias como moeda de troca. Dizem que há-de chegar a altura em que a tua voz será silêncio na minha cabeça e as linhas do teu rosto não serão mais que traços esbatidos num pedaço de papel. Recuso-me ainda a aceitar que um dia o passar das horas possam levar com elas as tuas palavras, os teus gestos e expressões. Custa-me a acreditar que a efemeridade da vida seja cruel ao ponto de te tornar um dia nulo perante todos aqueles que não te saberão. Na verdade, a dor maior reside aqui, na amplitude cruel deste eterno e penoso nunca.
Lembro-me como se fosse agora, o momento em que trocámos o primeiro olhar. Eras tu, foste sempre tu, serias sempre tu. Arrebatei-te nos meus braços, sôfrego do teu corpo, do teu cheiro, e prometi diante do prado verde dos teus olhos que nunca mais te deixaria fugir no tempo eterno que se transformou o nosso amor. As horas que partilhámos suspenderam o mundo e os ponteiros do relógio paravam esperando por nós. Éramos um só, como se um sem o outro já não fosse possível.
Sei que comecei a viver depois de ti, como se fosses o combustível do meu coração. Percebi isso no dia em que não ouvi os teus passos nas escadas, a melodia do teu “olá”, enquanto me beijavas a face e me sorrias como se fosse a primeira vez. O dia em que partiste foi o dia em que deixei de sentir o pulsar do sangue a percorrer-me o corpo e a paz com que me invadias a alma deu enfim lugar a uma cruel apatia que só os estéreis de espírito podem sentir. Morreste. Morremos.
É na solidão da noite que te procuro incessantemente. Torno-me louco e vasculho a vida na esperança de te achar perdida, esperando por mim. Acalma-me a certeza de que te encontro sempre, nas coisas que tocaste, que construíste e me deixaste. Estás em toda a parte, porém em lugar nenhum e a dor dessa ausência imposta só passará quando nos unirmos novamente, quando te puder tomar nos braços para sempre, como se fosse a primeira vez.
Sempre fui um puto revoltado, confesso. Lembro-me, como se fosse hoje, quando o Criador resolveu fazer o Mundo. Na altura achei tudo aquilo de uma arrogância atroz e prometi a mim mesmo que não lhe facilitava a vida. Afinal quem era Ele para se pôr a criar mundos sem pedir opiniões? Ninguém mais do que eu!
Na verdade, sei agora, a inveja toldou-me o discernimento e, se em tempos enchi o peito para anunciar o meu nome por cada vez que chegava para infernizar alguém, hoje apercebo-me que só fiz com que me associassem à dor e à desgraça existentes neste Mundo que Ele idealizou perfeito.
Sei que o meu espírito jovem e audaz não ajudou ao meu julgamento, mas sejamos sinceros, esta Terra feita à Sua imagem seria chata e aborrecida demais para se viver nela eternamente. Se exagerei? Sim, sinto-me pronto a admiti-lo. Mas no meio de todo o mal que vos infligi, tenho a certeza que acabei por trazer alguma emoção às vossas vidas que se adivinhavam rotineiras.
Gostava de ter também o poder de atrasar o tempo e lá me teriam, não invejando, mas ajudando na criação de um mundo que não precisava ser perfeito para ser bom. No fundo, o vosso todo-poderoso também precisava de uma lição. Nada pode ser perfeito e Ele aprendeu-o da pior forma, através do vosso sofrimento.
Não vos posso prometer tempos de paz e harmonia, pois agora a minha essência está enraizada em cada um de vós, que ao longo dos tempos me têm vindo a facilitar a vida, ajudando-me a espalhar o mal que sempre apregoei. Posso, no entanto, apresentar-me humildemente perante vós, assegurando-me, não perfeito, mas melhor. Tão bom quanto todos podemos ser se, colocando o orgulho de parte, me oferecerem o vosso perdão.
(Texto participante no 5º desafio do 18º Campeonato Nacional de Escrita Criativa).
Era baixo, coxo e metia os pés para dentro. Camisa branca aberta até ao umbigo, ostentava três ou quatro pêlos desgrenhados que tinha no meio do peito. Acreditava-se um sedutor e isso notava-se, quando subia a sobrancelha direita ao dizer “bom dia” às meninas que passavam na rua, o que não fazia mais do que evidenciar o seu olho torto. Elas riam, troçando, ele seguia gingão, orgulhoso dos sorrisos delas.
A confiança no charme duvidoso era inabalável e transformara-se na melhor forma de arrumar a um canto do pensamento a dureza da vida na rua. Deambulava por Lisboa, dia e noite, na solidão de um tempo que agora lhe parecia desde sempre. Ao longo dos anos, feitos de dias e horas iguais, desaprendeu os afectos que lhe negaram quando a saúde e o dinheiro lhe faltaram. Acabou por substituí-los pelo álcool e pelo sorriso malandro no rosto, denunciando uma falsa, mas reconfortante, felicidade. Com uma caixa de cartão na mão, pedia “uma ajudinha” a quem passava, e, no fundo, as moedas que lhe enchiam os copos que lhe anestesiavam a alma, não eram mais que a sentença perpétua de uma vida que não se cumpriu.
O coxo do Bairro da Bica não desperdiça dias sem sorrisos, ainda que os dias não lhe ofereçam razões para sorrir. Segue contente na desgraça que nunca lamenta, mas que conhece tão bem quanto às ruas que o acolhem. No olhar que lança, vivaço e brilhante, alimenta lições a quem passa, e quem passa questiona-se sempre se, como ele, continuariam a sorrir assim.
(Texto participante no 4º desafio do 18º Campeonato Nacional de Escrita Criativa).