"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
Então sorris e finges não estar cansada da batalha que travas todos os dias dentro de ti, há tanto tempo que já perdeste conta. Simulas estados de espírito porque não queres melindrar egos alheios e feres o teu por cada vez que te renegas. Não te cumpres , refugiada nesse medo que desenhaste no peito e consomes-te pela certeza de que podes e mereces mais e melhor que aquilo que dás a ti própria. Procuras incessantemente ser outra pessoa, num outro corpo e agarras-te à pouca fé de que um dia te sentirás inteira. Tu por completo. Eu, enfim.
Sentia o teu coração a bater no meu peito. O som do teu pulsar a ecoar pelo quarto quente. A minha boca sabia-me a ti e o meu corpo estremecia a cada toque da tua língua. Entreguei-me, era tua até que a exaustão me levasse para outra utopia diferente da nossa. Fechava os olhos para beber de ti com todos os meus sentidos, como se precisasse congelar aquele momento no tempo. Queria-te para sempre, assim.
O teu corpo no meu, a tua pele a beijar a minha desfazendo-se no meu desejo por ti. A tua respiração ofegante no meu ouvido, que no escuro me contava que me querias tanto quanto te queria a ti. Sentia as tuas mãos quentes por todo o corpo, passeavam-se sem os limites que nunca te impus e inebriavam-me a cada novo toque, sempre diferente, sempre doce e excitante. Nada me fazia lembrar do antes porque foi naquele momento que nasci, como se te ter fosse o início da vida como sempre a sonhei.
Abri os olhos para nos decorar na vontade de te sentir além de tudo o que é terreno. Despertei no momento em que me apercebi que afinal os lençóis não tinham o contorno nem o calor do teu corpo e o meu estava vazio de ti. Agora, como sempre, a cama parecia o deserto. Chorei.
Não eram raras as vezes que a sua mente fugia sem aviso, para se refugiar junto dele. Nessas alturas conseguia sempre sentir-lhe o cheiro ou deliciar-se com o seu sorriso quase divino, factos que aprendeu, com o tempo, a desvalorizar. Foi a forma que encontrou de se manter sã na decisão de que sozinha e sem ele o caminho se faria melhor e mais ligeiro.
Ainda acreditava na inteligência e perspicácia do passo que deu quando lhe sugeriu que não cruzassem mais o mesmo destino. Era uma romântica inveterada até deixar de sê-lo. Um dia acordou e percebeu que os pressupostos do amor pelos quais regrava a sua vida não eram mais que moedas lançadas à fonte dos seus desejos. Foi nesse dia, também, que o sentou à mesa num dos seus jantares dos quais ninguém fazia ideia, e sem pensar muito sobre o assunto comunicou-lhe que já não fazia sentido.
Saber que não era a única na sua vida, pelo menos a principal, amargava-lhe a boca que ele adoçava com beijos e promessas de que depois seria diferente. Nunca sentiu culpa, nunca achou que fosse útil senti-la, mas quando se sentiu sozinha, foi quando não quis mais. Sempre concordou que a solidão acompanhada era a pior forma de se estar só.
Estava só agora. Confundia a vontade de companhia com a vontade da sua companhia e era comum encontrar-se com o telefone na mão, pronta para chamá-lo só mais uma vez. Nessas alturas fechava os olhos e em vez de recordar tentava recriar as expectativa de um futuro com ele. Era sempre nesse momento que pousava o telefone e voltava à sua solidão protegida. De que lhe servia um erro hoje, que continuaria a sê-lo amanhã?