"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
Tinha o sonho de se cumprir. Nasceu pequeno mas cresceu grandioso, conquistando o Mundo aos poucos por cada pedaço de terra que os pés dos seus pisava. E esses, os que o carregavam em ombros e erguiam alto a sua bandeira, enchiam o peito para proclamar o seu nome, olhos raiados de orgulho pela pátria que os escolheu e que eles escolhiam de volta sem hesitar.
Assim se construiu um império, sonho concretizado dos audazes, que na coragem com que foram dotados esqueciam os medos e rasgavam mares infinitos até avistarem a terra firme que conquistavam. Voltavam sempre mais ricos, de ouro e de alma, e à chegada tinham os braços e os abraços das mães e das mulheres que, de coração apertado pela possibilidade de os entregarem para sempre ao mar, os recebiam com sorrisos e lágrimas de alívio.
A história repetia-se a cada nau que deixava o seu porto, em cada homem que desafiava a sua sorte na esperança de a mudar, como um sonho bom que acontece igual, vezes sem conta, até que um dia se possa tornar real. As águas salgadas continuavam a esperar a sua visita, como se cada passagem fosse uma carícia e cada carícia fosse recompensada com a chegada ao destino que desconheciam, mas que os esperava sempre e todas as vezes.
Não tinham o Mundo nas mãos, tinham o Mundo a seus pés. Poderiam ter escolhido passearem-se nele, disfrutarem das bênçãos que lhes foram concedidas tantas vezes, preferiram antes pisá-lo para marcarem uma superioridade que supunham de ferro e que afinal era tão frágil quanto um castelo de cartas à mercê do vento.
Hoje o império não o é no seu esplendor e os mapas não o denunciam a cada milha como antigamente. Restam-nos as histórias e os heróis que as escreveram. O sonho, esse, não se cumpriu e ficará para sempre suspenso nas palavras que Pessoa eternizou.
Uma pessoa comunicativa, dinâmica e de mãos dadas com o que se passa no Mundo, não pode compactuar com a castração de um direito tão fundamental como o acesso à informação. Vi-me, durante muito tempo, privado de coisas tão essenciais como partilhar com quem me segue e comigo se preocupa o que escolhi trazer para o meu almoço ou, da mesma forma, descobrir com que iguarias se deliciam os meus amigos. Mais, num Mundo onde as tecnologias fazem parte das nossas vidas a cada segundo, é para mim impensável correr o risco de falhar colheitas e de me ver ultrapassado por vizinhos do FarmVille, só porque a minha entidade patronal não entende que mais do que uma rede social, mais do que um jogo, isto é um estilo de vida, quase uma religião.
Num regime horário de oito horas serem-me permitidas apenas cinco para aceder àquela que é a plataforma da amizade, da partilha e da união, não é de todo uma benesse, mas antes uma afronta aos direitos da sociedade moderna, onde mais que pão para a boca, precisamos de ligação aos outros, de saber na hora e no momento exacto. A informação deve correr-nos nas veias. Ponto.
Como podem exigir de mim um trabalho concentrado e fidedigno se na minha cabeça vagueia a questão mais essencial e básica do ser humano: "o que estão os meus amigos e inimigos a fazer neste momento?" Como posso cumprir o meu dever para convosco se não me dão a possibilidade de ir desabafando as minhas dúvidas existenciais que tanto me assolam durante o horário de trabalho, de partilhar uma piada, ou de falar do peito avultado que a colega da frente teima em trazer de fora?
Podia tomar muito mais do vosso tempo tentando fazer com que percebessem a importância que tem o Facebook na vida dos vossos trabalhadores, de como o acesso ilimitado a esta rede faz de nós pessoas felizes, importantes e influentes, e como isso acabaria por beneficiar directamente a vossa empresa. Na ausência total de sensibilidade da vossa parte para esta questão resta-me apresentar a minha demissão, prestando, contrariado, os 30 dias que me são impostos e abdicando assim de mais sessenta horas de felicidade.
Texto participativo na 2ª jornada do 19º Campeonato Nacional de Escrita Criativa
Não sei a que sabe a tua pele.Por vezes acredito-a salgada, como o mar que corre no azul dos teus olhos, outras, juro que só pode ser doce, como a melodia da tua voz cantada ao meu ouvido. Fecho os olhos e imagino-te aqui, a cabeça na minha almofada, o olhar profundo no meu, pele com pele para que te possa guardar na minha e te buscar sempre que disso sinta necessidade, numa invasão de emoções e sensações que só tu poderás causar em mim.
Sonho-te todos os dias e nos meus sonhos toco-te e sinto-te como se estivesses aqui. Sorrio entre suspiros de prazer que o passar das tuas mãos me causa no corpo nu e aventuro-me também no teu, como se morasse nele, como se tivesse sido desenhada para ele. O teu aroma espalha-se em mim e cheira à paixão que me causas e que me sabe tão bem. A minha boca cobre-te num beijo que açabarca o mundo. O meu mundo. Tu. Descubro-te uma e outra vez, como se nunca te aprendesse por completo e não me canso. Quero ficar assim para sempre, na ilusão de que te tenho na palma da mão ainda quente do teu calor.
Vivo nesta utopia agridoce de que te possuo para que me possas possuir, nesta fantasia que criei para sobreviver à realidade de não ser comigo que te deitas à noite, nem a quem sorris a cada novo despertar. Não posso saber a que sabe a tua pele, mas sei que gosto e que, assim o destino se cumpra, será a melhor coisa que a minha boca alguma vez provará.
Texto participativo na 1ª jornada do 19º Campeonato Nacional de Escrita Criativa.
O avô trabalhava no campo e não tinha estudos. Fez a quarta classe já adulto, revelando a matéria com que era feito. Mas o avô fazia quadras, dezenas, centenas ao longo da sua e depois da minha vida. Guardava-las na memória e recitava-las tantas vezes quanto o seu orgulho nelas o ditava. Tantas que nós já as sabíamos de cor e entre protestos de mais uma e outra vez, as dizíamos com ele, misturadas nos suspiros e revirar de olhos entediados.
Foi neste embalar constante de versos antigos que aprendi com o avô a graça de rimar palavras, os sons a baterem certo, cantando. Desde pequenina que as fazia, por piada quase sempre, pois nunca me achei com traços de poetisa e muito menos com o talento de uma. Hoje, ao reler rascunhos perdidos num caderno encontrei o meu amor por ele que já não sabia ter escrito e descrito, sem métrica ou perícia genial, mas com o mesmo carinho com que ele sempre descreveu o seu:
"Avô Vitor"
Nascido em Alhandra
À beira Tejo criado
Palmilhava as Lezírias
Descalço com o seu cajado.
Homem ainda menino,
Mais velho que a sua idade
Cedo sentiu nos ombros
O peso da responsabilidade.
Se sofria era calado
Era sua obrigação
Sabia que o seu trabalho
Se transformava em pão.
Cresceu sem ambição
Não foi ensinado a sonhar
Liberdade só a sentia
Quando se escapava no Tejo a nadar.
Homem que não foi menino
Como diria Soeiro
Sabia, sem lhe ensinarem
Ser homem por inteiro.
Casou, teve três filhos
E foi filho até ao fim
Nunca abandonou os país
O seu coração o ditava assim.
Apesar de já adulto
Do seu Tejo não abdicava
Perdia-se nas imensas horas
Que nas suas águas nadava.
Nadava não só por si
Mas por Alhandra, seu berço amado
E são incontáveis as vezes
Que com orgulho foi medalhado.
Hoje a idade é cruel
É memória que lhe resta
Fecha os olhos, sente o Tejo
Acariciando-o numa suave festa.
Sabe que o tempo não volta
Tem disso perfeita noção
Mas recordar o que foi
Conforta-lhe o coração.
Vive os dias devagar
Revivendo a sua vida
Recorda tudo o que foi
Interroga-se o que será ainda.
Do futuro nada sei
Sei do presente e passado
Não houve filho, pai e avô
Do que ele mais dedicado
Foi tantos homens num só
Plural na sua humildade
Agradecemos-te meu pai, meu avô
Por toda a eternidade.
Armação de Pêra, 27 de Agosto de 2012
Lembro-me agora que as tinha escrito para o homenagear num evento do qual a doença o acabou por afastar, para lhe lermos e lhe darmos a conhecer aquilo que só dizíamos com o olhar e que não podemos ter a certeza de que alguma vez percebeu. O avô não ouviu estas palavras, não adormeceu a recitá-las nem as decorou e as juntou às suas, como se fossem parte dele. Consigo desenhar o seu sorriso ao escutá-las com atenção, concentrando-se e enganando a velhice para não perder cada sílaba do nosso amor. Espero que me tenha ouvido hoje, a lê-las como se nunca as tivesse escutado, como se não tivessem saído das minhas mãos. Espero que tenha sorrido de orgulho e felicidade, e que seja com esse sorriso, sempre doce, sempre saudoso, que continue a olhar por nós.