"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
Hoje faz sete meses que não te vejo. Mentira. Vejo-te nos sonhos onde quase todas as noites me visitas, e onde muitas vezes me encontro perdida no mesmo momento, obrigada a reviver o dia em que deixaste de ser matéria e passaste a ser memória e afectos. Nunca estivemos tanto tempo sem saber um do outro, ou pelo menos eu de ti. Sabes que não acredito nisso de perdurar depois da vida, a não ser no coração de quem foi nosso e nos tomou como parte imortal da sua essência. Temos isso em comum. Então angustia-me o facto de não poucas as vezes te ver ali, deitado sem fôlego, corpo sem alma, vulto do que foste. A dor que sinto é sempre a mesma e dói igual na cena que se repete.
Hoje, no dia do mês que mais nos mói a cabeça e o coração decidi que não pertences mais aqui. Aceitar que completaste o teu caminho é o que me falta para seguir o meu com a serenidade de quem carrega o amor que recebeu. Prender-te a mim às vezes voluntária, outras involuntariamente, é desrespeitar a tua história e o legado que construíste para nos deixar. Não nos criaste para nos arrastarmos pela vida com as dores que vamos acumulando, mas sim para arrastar a vida connosco, derrubando o que vier, cabeça erguida e peito feito à luta.
Hoje, que o rio onde descansas recebe a luz da lua cheia digo-te o adeus definitivo que me faltava, o adeus de quem aceita humildemente que a vida é feita de ciclos e que o teu se cumpriu exactamente como se deveria cumprir. Faço-o de coração leve, sem as lágrimas que nunca consigo evitar porque sei que estivesse tu aqui sentado ao meu lado encolherias os ombros e me dirias o óbvio, a tua vez haveria de chegar.
Vou continuar a dar-te a mão para te puxar de dentro das minhas memórias e poder falar das histórias que me contaste e que muitas vezes criámos juntos, vou continuar a ver fotografias para relembrar os traços do teu rosto e vou falar de ti com a naturalidade de quem percebe e aceita a ausência, sem medo de recuperar uma presença que já não o é. Mas hoje é dia de te deixar ficar onde estás, subjugar-me às evidências de que não nos voltaremos a ver mas que ao mesmo tempo serás imortal naquilo que me ensinaste e me permitiste viver.
Hoje e sempre, avô, serás a figura ao portão, esperando que eu passe para me acenar o doce e eterno adeus.
"Os dedos trémulos pousados sobre o teclado, o cursor a viajar sobre o botão ENVIAR..." o corpo a pedir-lhe clemência, exausto de dor e raiva que, embora tentasse filtrar, não destilava nas palavras impressas no ecrã à sua frente.
Não sabia há quantos anos o seu olhar não cruzava as linhas do rosto dele, nem há quanto tempo tinham trocado beijos e abraços fraternos, como todos os irmãos deveriam fazer. Ele tinha escolhido a vida sem as suas vidas e no meio da dor e confusão, respeitaram a sua ausência. A voz que lhe respondera do outro lado do telefone no dia em que o pai adoeceu, não era a mesma que tinha conhecido. Calou-se por momentos, na dúvida se teria ligado para a pessoa certa, depois decifrou na sua mente as semelhanças misturadas no peso da idade. Percebeu, sem admitir a si própria, que afinal tinha saudades. Engoliu-as e chamou por ele, o seu nome a estranhar-se-lhe na língua, como se nunca o tivesse pronunciado:
- "O pai está doente. Muito. Quer-te ver e despedir-se."
O toque intermitente da chamada desligada, mais do que dor, provocou-lhe náuseas. Acreditou que era engano, brincadeira do destino tão dado a trocar-lhe as voltas. Tentou novamente e o mesmo som, agora de chamada rejeitada, confirmou-lhe o desengano. Não sentiu, mas as lágrimas caíam-lhe nas mãos inertes que pousou sobre o colo, enquanto na sua cabeça ensaiava a história piedosa que contaria ao pai. "Ele há-de vir", dizia, e a sensação era igual à de ser trespassada por facas da cabeça aos pés. Ele nunca veio e o pai nunca se despediu.
Em frente ao computador lê e relê a sua alma. Talvez não chegue a enviar o texto que teceu com a sua angústia, talvez o irmão não valha uma palavra. Conforta-lhe a certeza de que a sua mão foi melhor, a sua coragem maior, e na hora da despedida eterna não existiu espaço para ausência, mas para um amor que encheu dois corações, um que batia descompassado da saudade que já sentia, outro que parava na serenidade de saber que foi amado de verdade.