"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
Em 2012, por esta altura, estava zangada com o ano que chegava ao fim. 2013 não gostou e vingou-se do meu desagrado como que um castigo que carrego em cada suspiro. Rever estes 365 dias num minuto é encontrar mais dor que alegria, mais lágrimas que sorrisos, é marcar ausências que embora não pareçam, ainda, reais, são para sempre e não há volta a dar por mais voltas que o mundo dê. Olho para trás por cima do ombro e chove, o dia que foi este ano está cinzento e triste e partiu-me o coração que se vai cicatrizando devagar, devagarinho. Ouvi ontem que um coração partido deixa entrar luz pelas fissuras. Que assim seja.
Não gosto da passagem de ano, da festa e da euforia que é suposto sentir quando os zeros no relógio se alinham. Este é tão somente, para mim, um dia de reflexão onde coloco na balança o bom e o mau, e permito-me o luxo de trancar tudo em mais uma caixinha que abrirei apenas para retirar boas memórias e lições. Ainda assim, no momento em que o fogo rebenta nos céus e a esperança é maior, volto a ser criança ingénua e deixo-me acreditar que a mudança será para melhor. É apenas isto que gosto no passo em frente rumo a mais um Janeiro, a ideia, talvez utópica, de que posso recomeçar com novo fôlego, numa nova caminhada onde todos os trilhos estão em aberto. Assim o destino ajude e desta vez só os bons serão percorridos. Que haja luz em 2014.
Quando penso em Natal tenho de novo quatro anos e estou em casa da minha avó. Cheira a fritos e ouvem-se vozes que se atropelam num misto de conversa e gargalhadas que adoçam o momento. No quarto que foi meu quarto, em cima da cama da mãe, um alguidar velho e gasto serve de repouso à massa para os sonhos, aconchegada pelo cobertor laranja. Fecho os olhos e sinto o cheiro inconfundível da aguardente misturada com a abóbora. Curiosamente, não gosto de sonhos, mas sonho sempre em voltar à altura em que eles eram feitos de amor.
Quando penso em Natal tenho de novo quatro anos e visto camisas de flanela e camisolas coloridas que a mãe comprou para eu estrear. Na sala da avó, perto da janela cheira a pinheiro fresco que o pai carregou para eu decorar. Não há regras de decoração e os enfeites não condizem uns com os outros como hoje fazemos questão, mas o resultado final é uma explosão de cores que me envolve numa cortina de felicidade que ainda sinto no coração. À volta do pinheiro perde-se a conta aos presentes embrulhados em papel fino, igualmente colorido, e às cabeças curiosas, minha e dos primos, adivinhando com a ponta dos dedos o que o Pai Natal tinha deixado para cada um.
Quando penso em Natal tenho de novo quatro anos e o pai espera que eu adormeça para colocar a bicicleta embrulhada debaixo do pinheiro. Acordo de manhã para a confirmação de que o Pai Natal existe mesmo e passou na casa da avó para me deixar os meus presentes. Chove lá fora e as luzes coloridas do Pinheiro iluminam a sala desde manhã até à noite, num piscar doce que me embala até hoje.
Quando penso em Natal tenho de novo quatro anos e a mesa de madeira velha é maior e está cheia. Cheia de comida, de gente e de amor, num calor que só existe ali e que nunca nenhum frio chegará para arrefecer. No lugar do avô, sempre o avô. Camisa de flanela aos quadrados por baixo da sua camisola de malha verde. Sinto-lhe o cheiro e a presença. O sorriso fácil, a gargalhada matreira e inconfundível e as anedotas na ponta da língua, decoradas para preencher o dia.
Quando penso em Natal tenho de novo quatro anos e sento-me no banquinho de madeira que o avô fez para colocar no cadeirão e para que eu pudesse chegar à mesa como os crescidos. Do meu lugar vejo toda a gente reunida num circulo de união. Avô, avó, pai e mãe, tios e primos, num Natal que guardo como sendo o Natal.
Quando penso em Natal tenho de novo quatro anos e é a viagem mais doce e dolorosa que algum dia farei. Pensar no Natal e perceber que não tenho quatro anos é aceitar que todos os outros Natais serão cópias forjadas, tentativas frustradas de recriar o amor que só era possível quando a casa da avó se enchia de gente e de cheiro a fritos, de presentes embrulhados em amor, e da presença insubstituível do avô. Do avô que não ligava ao Natal, mas que era parte da magia dos meus.