"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
Não sei se sabes, mas temo-nos encontrado todas as noites. Na verdade, se o souberes, tudo o que acreditávamos é mentira e somos muito mais do que um corpo. Não que me importe de te ver e rever, estar mais uma vez ao pé de ti ainda que numa dimensão que não a minha. Mas não assim. Não quando, todas as vezes que nos cruzamos, te veja a sofrer, a definhar, a pedir-me o último abraço. Aquele que não demos. Nunca demos muitos, pois não?
Resolvi escrever-te na esperança de não te ver. Ironias do destino. Que saudades de ti. Da tua voz, das tuas mãos, das tuas rimas de métrica duvidosa mas de sabedoria inegável e das histórias repetidas que me enfadavam até ao desespero. Fechava os olhos enquanto as contavas, adormecia, acordava e não davas por isso. Ficávamos contentes os dois. Espero que o estejas ainda, se estiveres em alguma parte que não seja o peito de cada um dos teus.
Estás sempre comigo, mas assim não quero. Talvez tenha ficado muita coisa por dizer, mas não fica sempre? As palavras, os beijos e os abraços são sempre em menor escala do que aquela que deveriam ser, e já fiz as pazes com o facto de que só damos valor quando estamos prestes a perder. Falha nossa, não tanto tua, que sempre apregoaste o contrário.
Eras muito mais do que aquilo que és nestas visitas sem pedir licença. Não te quero recordar como uma sombra do homem que me pegava ao colo, que atravessava o Tejo mais vezes do que aquelas que alguma vez conseguimos contar, que lavrava campos de sol a sol e que, mesmo assim, encontrava na sua vida mais sorrisos que tristezas, ainda que ela sempre tivesse tido mais tristezas que sorrisos.
Visita-me noutro dia, quando puderes ser aquele que te define e te honra. Por agora fica aqui, velado pelo calor do meu coração, apertado de saudade, mas rebentando de orgulho por fazeres parte dele.
Não acredito em acasos. De uma forma ou de outra, vou-me apercebendo que a vida se liga e nos liga num fio condutor que nem sempre parece lógico ou justo, mas que no fim acaba por fazer sentido. Não é, muitas vezes, imediata esta luz que se acende em nós e nos ilumina as ideias e o caminho, é no entanto inequivocamente esclarecedora.
Há precisamente três anos cruzavam-se neste Mundo terreno, nesta esféra palpável, dois dos homens da minha vida. Um acabado de chegar, outro a ensaiar o adeus. Naquele dia em que me chovia na pele e sorria de felicidade pelo novo amor que me enchia o peito sem ainda ter sequer conhecido, não percebi o que havia para perceber. Foi preciso tempo. Foi preciso perder.
Hoje, que o coração se acomoda à nova forma que as feridas lhe deram, consigo ver. Há três anos atrás, num dia em que o Sol se escondia, talvez para não me mostrar a total clareza do momento, chegava o Gabriel. O meu doce Gabriel, desejado e amado por todos. Pouco tempo depois, não sem antes lhe dar o colo orgulhoso de bisavô, deixando a mensagem que ainda nos soa a todos na cabeça "Façam dele um homem", partia o nosso querido avô. Hoje sim, consigo ver. Consigo entender. Consigo saber. E esta sabedoria conforta o peito meio dorido, meio feliz. Um Anjo chegou porque outro tinha de partir. Deixou-nos para nos guardar, deixou-o para nos reconfortar. Não acredito em acasos. Parabéns amor da prima.
Aprendi a apreciar o tempo. Aquele que corre no momento, neste momento em que sou só eu e ele e o som das teclas a imprimir o meu pensamento. Aquele que já passou e que me feriu, não sei se na mesma proporção com que me abençoou. Aprendo ainda a não pensar no tempo que falta. O que é interrogação e por sê-lo chega a doer. O que é certeza das coisas que não posso mudar e por sê-lo, mais uma vez, dói. Corrói. Destrói aquele que é certo e que é agora.
Gosto da minha nostalgia e da forma como ela não deixa morrer o que é importante. Como a cada passo e a cada queda, me permite olhar para trás com novo olhar, e para a frente com mais sabedoria. Gostava de poder saltitar entre o antes e o agora. Ir lá atrás buscar os instantes que foram tão breves e que, na inocência do caminho, só valorizei na sua inexistência.
Na minha bipolaridade emocional, não gosto, afinal, da tal nostalgia. É como uma mão que me puxa para trás quando sei que o único sentido é em frente. É a forma desesperada de tentar devolver à essência a sua matéria, a que se perdeu e não volta, a que se esfumou e é agora nada a não ser memórias que carrego. Umas vezes pesadas, outras de uma leveza ímpar, de quem descobre que afinal foi tão feliz.
O tempo não é cruel nem benévolo. Ele apenas passa. Somos nós que temos de aprender a passar com ele.
Revirei fotografias antigas tiradas pela mão do acaso. Vi mortos que estão tão vivos, vivos que decidiram morrer. Encontrei-me mas não me revi. Uma gaveta cheia de vida que não é. Uma pilha de lembranças tão inúteis quanto o ardor que deixam no peito. Atrás, no tempo onde se congelou a eternidade, a verdade era mentira. Os sorrisos, os abraços, as expressões de afectos transformados. Quase tudo era mentira. Sobrou papel e sombras. Sobrou pouco mais que pó e memórias sem sentido. Sobra a lágrima que não o chega a ser, que se envergonha e permanece no canto, marejando os olhos, poupando o rosto. É a alma quem se molha, quem se resfria, mas é também ela que se ergue no corpo, menos inocente, menos vulnerável, mais capaz de viver a pureza da verdade.
Abandonei este canto como abandonei tudo o resto. Como se, de alguma forma, o acto de sair deixasse para trás todas as dores. Como se bater com a porta acomodasse a vida ao meu jeito, e tudo, finalmente batesse certo. Nem eu sei já o que é o certo. Há tantas nuances, tantos caminhos sonhados, tantos outros frustrados. Há planos desfeitos, outros cumpridos sem o sabor prometido. Chegar ao fim e perceber que não era assim que queria, querer tanto começar e não pisar sequer a linha de partida.
Aprendi nestes meses aquilo que sempre soube. Não há por onde fugir, não há portos seguros para as tempestades. A vida faz-se colada a nós, com todos os amores, todas as dores, todas as razões que não chegamos a compreender. A vida faz-se connosco ao lado dela. Passando pelas tormentas e alcançando os oásis. Caminhando. Às vezes em frente, outras dando os tais dois passos atrás. Tomo balanço e continuo. A vida, levo-a comigo.