Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

2 Steps Back

"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego

2 Steps Back

"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego

O Natal dos meus quatro anos.

Quando penso em Natal tenho de novo quatro anos e estou em casa da minha avó. Cheira a fritos e ouvem-se vozes que se atropelam num misto de conversa e gargalhadas que adoçam o momento. No quarto que foi meu quarto, em cima da cama da mãe, um alguidar velho e gasto serve de repouso à massa para os sonhos, aconchegada pelo cobertor laranja. Fecho os olhos e sinto o cheiro inconfundível da aguardente misturada com a abóbora. Curiosamente, não gosto de sonhos, mas sonho sempre em voltar à altura em que eles eram feitos de amor.

Quando penso em Natal tenho de novo quatro anos e visto camisas de flanela e camisolas coloridas que a mãe comprou para eu estrear. Na sala da avó, perto da janela cheira a pinheiro fresco que o pai carregou para eu decorar. Não há regras de decoração e os enfeites não condizem uns com os outros como hoje fazemos questão, mas o resultado final é uma explosão de cores que me envolve numa cortina de felicidade que ainda sinto no coração. À volta do pinheiro perde-se a conta aos presentes embrulhados em papel fino, igualmente colorido, e às cabeças curiosas, minha e dos primos, adivinhando com a ponta dos dedos o que o Pai Natal tinha deixado para cada um.

Quando penso em Natal tenho de novo quatro anos e o pai espera que eu adormeça para colocar a bicicleta embrulhada debaixo do pinheiro. Acordo de manhã para a confirmação de que o Pai Natal existe mesmo e passou na casa da avó para me deixar os meus presentes. Chove lá fora e as luzes coloridas do Pinheiro iluminam a sala desde manhã até à noite, num piscar doce que me embala até hoje.

Quando penso em Natal tenho de novo quatro anos e a mesa de madeira velha é maior e está cheia. Cheia de comida, de gente e de amor, num calor que só existe ali e que nunca nenhum frio chegará para arrefecer. No lugar do avô, sempre o avô. Camisa de flanela aos quadrados por baixo da sua camisola de malha verde. Sinto-lhe o cheiro e a presença. O sorriso fácil, a gargalhada matreira e inconfundível e as anedotas na ponta da língua, decoradas para preencher o dia.

Quando penso em Natal tenho de novo quatro anos e sento-me no banquinho de madeira que o avô fez para colocar no cadeirão e para que eu pudesse chegar à mesa como os crescidos. Do meu lugar vejo toda a gente reunida num circulo de união. Avô, avó, pai e mãe, tios e primos, num Natal que guardo como sendo o Natal.

Quando penso em Natal tenho de novo quatro anos e é a viagem mais doce e dolorosa que algum dia farei. Pensar no Natal e perceber que não tenho quatro anos é aceitar que todos os outros Natais serão cópias forjadas, tentativas frustradas de recriar o amor que só era possível quando a casa da avó se enchia de gente e de cheiro a fritos, de presentes embrulhados em amor, e da presença insubstituível do avô. Do avô que não ligava ao Natal, mas que era parte da magia dos meus.

Aprender a dizer adeus.

Hoje faz sete meses que não te vejo. Mentira. Vejo-te nos sonhos onde quase todas as noites me visitas, e onde muitas vezes me encontro perdida no mesmo momento, obrigada a reviver o dia em que deixaste de ser matéria e passaste a ser memória e afectos. Nunca estivemos tanto tempo sem saber um do outro, ou pelo menos eu de ti. Sabes que não acredito nisso de perdurar depois da vida, a não ser no coração de quem foi nosso e nos tomou como parte imortal da sua essência. Temos isso em comum. Então angustia-me o facto de não poucas as vezes te ver ali, deitado sem fôlego, corpo sem alma, vulto do que foste. A dor que sinto é sempre a mesma e dói igual na cena que se repete.

Hoje, no dia do mês que mais nos mói a cabeça e o coração decidi que não pertences mais aqui. Aceitar que completaste o teu caminho é o que me falta para seguir o meu com a serenidade de quem carrega o amor que recebeu. Prender-te a mim às vezes voluntária, outras involuntariamente, é desrespeitar a tua história e o legado que construíste para nos deixar. Não nos criaste para nos arrastarmos pela vida com as dores que vamos acumulando, mas sim para arrastar a vida connosco, derrubando o que vier, cabeça erguida e peito feito à luta.

Hoje, que o rio onde descansas recebe a luz da lua cheia digo-te o adeus definitivo que me faltava, o adeus de quem aceita humildemente que a vida é feita de ciclos e que o teu se cumpriu exactamente como se deveria cumprir. Faço-o de coração leve, sem as lágrimas que nunca consigo evitar porque sei que estivesse tu aqui sentado ao meu lado encolherias os ombros e me dirias o óbvio, a tua vez haveria de chegar.

Vou continuar a dar-te a mão para te puxar de dentro das minhas memórias e poder falar das histórias que me contaste e que muitas vezes criámos juntos, vou continuar a ver fotografias para relembrar os traços do teu rosto e vou falar de ti com a naturalidade de quem percebe e aceita a ausência, sem medo de recuperar uma presença que já não o é. Mas hoje é dia de te deixar ficar onde estás, subjugar-me às evidências de que não nos voltaremos a ver mas que ao mesmo tempo serás imortal naquilo que me ensinaste e me permitiste viver.

Hoje e sempre, avô, serás a figura ao portão, esperando que eu passe para me acenar o doce e eterno adeus.

A despedida.

"Os dedos trémulos pousados sobre o teclado, o cursor a viajar sobre o botão ENVIAR..."  o corpo a pedir-lhe clemência, exausto de dor e raiva que, embora tentasse filtrar, não destilava nas palavras impressas no ecrã à sua frente.

Não sabia há quantos anos o seu olhar não cruzava as linhas do rosto dele, nem há quanto tempo tinham trocado beijos e abraços fraternos, como todos os irmãos deveriam fazer. Ele tinha escolhido a vida sem as suas vidas e no meio da dor e confusão, respeitaram a sua ausência. A voz que lhe respondera do outro lado do telefone no dia em que o pai adoeceu, não era a mesma que tinha conhecido. Calou-se por momentos, na dúvida se teria ligado para a pessoa certa, depois decifrou na sua mente as semelhanças misturadas no peso da idade. Percebeu, sem admitir a si própria, que afinal tinha saudades. Engoliu-as e chamou por ele, o seu nome a estranhar-se-lhe na língua, como se nunca o tivesse pronunciado:

 

- "O pai está doente. Muito. Quer-te ver e despedir-se."

 

O toque intermitente da chamada desligada, mais do que dor, provocou-lhe náuseas. Acreditou que era engano, brincadeira do destino tão dado a trocar-lhe as voltas. Tentou novamente e o mesmo som, agora de chamada rejeitada, confirmou-lhe o desengano. Não sentiu, mas as lágrimas caíam-lhe nas mãos inertes que pousou sobre o colo, enquanto na sua cabeça ensaiava a história piedosa que contaria ao pai. "Ele há-de vir", dizia, e a sensação era igual à de ser trespassada por facas da cabeça aos pés. Ele nunca veio e o pai nunca se despediu.

Em frente ao computador lê e relê a sua alma. Talvez não chegue a enviar o texto que teceu com a sua angústia, talvez o irmão não valha uma palavra. Conforta-lhe a certeza de que a sua mão foi melhor, a sua coragem maior, e na hora da despedida eterna não existiu espaço para ausência, mas para um amor que encheu dois corações, um que batia descompassado da saudade que já sentia, outro que parava na serenidade de saber que foi amado de verdade.

Sonhos que não se cumprem.

Tinha o sonho de se cumprir. Nasceu pequeno mas cresceu grandioso, conquistando o Mundo aos poucos por cada pedaço de terra que os pés dos seus pisava. E esses, os que o carregavam em ombros e erguiam alto a sua bandeira, enchiam o peito para proclamar o seu nome, olhos raiados de orgulho pela pátria que os escolheu e que eles escolhiam de volta sem hesitar.

Assim se construiu um império, sonho concretizado dos audazes, que na coragem com que foram dotados esqueciam os medos e rasgavam mares infinitos até avistarem a terra firme que conquistavam. Voltavam sempre mais ricos, de ouro e de alma, e à chegada tinham os braços e os abraços das mães e das mulheres que, de coração apertado pela  possibilidade de os entregarem para sempre ao mar, os recebiam com sorrisos e lágrimas de alívio.

A história repetia-se a cada nau que deixava o seu porto, em cada homem que desafiava a sua sorte na esperança de a mudar, como um sonho bom que acontece igual, vezes sem conta, até que um dia se possa tornar real. As águas salgadas continuavam a esperar a sua visita, como se cada passagem fosse uma carícia e cada carícia fosse recompensada com a chegada ao destino que desconheciam, mas que os esperava sempre e todas as vezes.

Não tinham o Mundo nas mãos, tinham o Mundo a seus pés. Poderiam ter escolhido passearem-se nele, disfrutarem das bênçãos que lhes foram concedidas tantas vezes, preferiram antes pisá-lo para marcarem uma superioridade que supunham de ferro e que afinal era tão frágil quanto um castelo de cartas à mercê do vento.

Hoje o império não o é no seu esplendor e os mapas não o denunciam a cada milha como antigamente. Restam-nos as histórias e os heróis que as escreveram. O sonho, esse, não se cumpriu e ficará para sempre suspenso nas palavras que Pessoa eternizou.

Vícios.

Exmos. Srs.,

Uma pessoa comunicativa, dinâmica e de mãos dadas com o que se passa no Mundo, não pode compactuar com a castração de um direito tão fundamental como o acesso à informação. Vi-me, durante muito tempo, privado de coisas tão essenciais como partilhar com quem me segue e comigo se preocupa o que escolhi trazer para o meu almoço ou, da mesma forma, descobrir com que iguarias se deliciam os meus amigos. Mais, num Mundo onde as tecnologias fazem parte das nossas vidas a cada segundo, é para mim impensável correr o risco de falhar colheitas e de me ver ultrapassado por vizinhos do FarmVille, só porque a minha entidade patronal não entende que mais do que uma rede social, mais do que um jogo, isto é um estilo de vida, quase uma religião.

Num regime horário de oito horas serem-me permitidas apenas cinco para aceder àquela que é a plataforma da amizade, da partilha e da união, não é de todo uma benesse, mas antes uma afronta aos direitos da sociedade moderna, onde mais que pão para a boca, precisamos de ligação aos outros, de saber na hora e no momento exacto. A informação deve correr-nos nas veias. Ponto.

Como podem exigir de mim um trabalho concentrado e fidedigno se na minha cabeça vagueia a questão mais essencial e básica do ser humano: "o que estão os meus amigos e inimigos a fazer neste momento?" Como posso cumprir o meu dever para convosco se não me dão a possibilidade de ir desabafando as minhas dúvidas existenciais que tanto me assolam durante o horário de trabalho, de partilhar uma piada, ou de falar do peito avultado que a colega da frente teima em trazer de fora?

Podia tomar muito mais do vosso tempo tentando fazer com que percebessem a importância que tem o Facebook na vida  dos vossos trabalhadores, de como o acesso ilimitado a esta rede faz de nós pessoas felizes, importantes e influentes, e como isso acabaria por beneficiar directamente a vossa empresa. Na ausência total de sensibilidade da vossa parte para esta questão resta-me apresentar a minha demissão, prestando, contrariado, os 30 dias que me são impostos e abdicando assim de mais sessenta horas de felicidade.

 

Texto participativo na 2ª jornada do 19º Campeonato Nacional de Escrita Criativa

Não sei a que sabe a tua pele.

Não sei a que sabe a tua pele. Por vezes acredito-a salgada, como o mar que corre no azul dos teus olhos, outras, juro que só pode ser doce, como a melodia da tua voz cantada ao meu ouvido. Fecho os olhos e imagino-te aqui, a cabeça na minha almofada, o olhar profundo no meu, pele com pele para que te possa guardar na minha e te buscar sempre que disso sinta necessidade, numa invasão de emoções e sensações que só tu poderás causar em mim.

Sonho-te todos os dias e nos meus sonhos toco-te e sinto-te como se estivesses aqui. Sorrio entre suspiros de prazer que o passar das tuas mãos me causa no corpo nu e aventuro-me também no teu, como se morasse nele, como se tivesse sido desenhada para ele. O teu aroma espalha-se em mim e cheira à paixão que me causas e que me sabe tão bem. A minha boca cobre-te num beijo que açabarca o mundo. O meu mundo. Tu. Descubro-te uma e outra vez, como se nunca te aprendesse por completo e não me canso. Quero ficar assim para sempre, na ilusão de que te tenho na palma da mão ainda quente do teu calor.

Vivo nesta utopia agridoce de que te possuo para que me possas possuir, nesta fantasia que criei para sobreviver à realidade de não ser comigo que te deitas à noite, nem a quem sorris a cada novo despertar. Não posso saber a que sabe a tua pele, mas sei que gosto e que, assim o destino se cumpra, será a melhor coisa que a minha boca alguma vez provará.

 

Texto participativo na 1ª jornada do 19º Campeonato Nacional de Escrita Criativa.

Quadras de amor.

O avô trabalhava no campo e não tinha estudos. Fez a quarta classe já adulto, revelando a matéria com que era feito. Mas o avô fazia quadras, dezenas, centenas ao longo da sua e depois da minha vida. Guardava-las na memória e recitava-las tantas vezes quanto o seu orgulho nelas o ditava. Tantas que nós já as sabíamos de cor e entre protestos de mais uma e outra vez, as dizíamos com ele, misturadas nos suspiros e revirar de olhos entediados.

Foi neste embalar constante de versos antigos que aprendi com o avô a graça de rimar palavras, os sons a baterem certo, cantando. Desde pequenina que as fazia, por piada quase sempre, pois nunca me achei com traços de poetisa e muito menos com o talento de uma. Hoje, ao reler rascunhos perdidos num caderno encontrei o meu amor por ele que já não sabia ter escrito e descrito, sem métrica ou perícia genial, mas com o mesmo carinho com que ele sempre descreveu o seu:

 

"Avô Vitor"

Nascido em Alhandra

À beira Tejo criado

Palmilhava as Lezírias

Descalço com o seu cajado.

 

Homem ainda menino,

Mais velho que a sua idade

Cedo sentiu nos ombros

O peso da responsabilidade.

 

Se sofria era calado

Era sua obrigação

Sabia que o seu trabalho

Se transformava em pão.

 

Cresceu sem ambição

Não foi ensinado a sonhar

Liberdade só a sentia

Quando se escapava no Tejo a nadar.

 

Homem que não foi menino

Como diria Soeiro

Sabia, sem lhe ensinarem

Ser homem por inteiro.

 

Casou, teve três filhos

E foi filho até ao fim

Nunca abandonou os país

O seu coração o ditava assim.

 

Apesar de já adulto

Do seu Tejo não abdicava

Perdia-se nas imensas horas

Que nas suas águas nadava.

 

Nadava não só por si

Mas por Alhandra, seu berço amado

E são incontáveis as vezes

Que com orgulho foi medalhado.

 

Hoje a idade é cruel

É memória que lhe resta

Fecha os olhos, sente o Tejo

Acariciando-o numa suave festa.

 

Sabe que o tempo não volta

Tem disso perfeita noção

Mas recordar o que foi

Conforta-lhe o coração.

 

Vive os dias devagar

Revivendo a sua vida

Recorda tudo o que foi

Interroga-se o que será ainda.

 

Do futuro nada sei

Sei do presente e passado

Não houve filho, pai e avô

Do que ele mais dedicado

 

Foi tantos homens num só

Plural na sua humildade

Agradecemos-te meu pai, meu avô

Por toda a eternidade.

 

Armação de Pêra, 27 de Agosto de 2012 

 

Lembro-me agora que as tinha escrito para o homenagear num evento do qual a doença o acabou por afastar, para lhe lermos e lhe darmos a conhecer aquilo que só dizíamos com o olhar e que não podemos ter a certeza de que alguma vez percebeu. O avô não ouviu estas palavras, não adormeceu a recitá-las nem as decorou e as juntou às suas, como se fossem parte dele. Consigo desenhar o seu sorriso ao escutá-las com atenção, concentrando-se e enganando a velhice para não perder cada sílaba do nosso amor. Espero que me tenha ouvido hoje, a lê-las como se nunca as tivesse escutado, como se não tivessem saído das minhas mãos. Espero que tenha sorrido de orgulho e felicidade, e que seja com esse sorriso, sempre doce, sempre saudoso, que continue a olhar por nós.

Estados de alma.

Então sorris e finges não estar cansada da batalha que travas todos os dias dentro de ti, há tanto tempo que já perdeste conta. Simulas estados de espírito porque não queres melindrar egos alheios e feres o teu por cada vez que te renegas. Não te cumpres , refugiada nesse medo que desenhaste no peito e consomes-te pela certeza de que podes e mereces mais e melhor que aquilo que dás a ti própria. Procuras incessantemente ser outra pessoa, num outro corpo e agarras-te à pouca fé de que um dia te sentirás inteira. Tu por completo. Eu, enfim.

Vazio.

Sentia o teu coração a bater no meu peito. O som do teu pulsar a ecoar pelo quarto quente. A minha boca sabia-me a ti e o meu corpo estremecia a cada toque da tua língua. Entreguei-me, era tua até que a exaustão me levasse para outra utopia diferente da nossa. Fechava os olhos para beber de ti com todos os meus sentidos, como se precisasse congelar aquele momento no tempo. Queria-te para sempre, assim.

O teu corpo no meu, a tua pele a beijar a minha desfazendo-se no meu desejo por ti. A tua respiração ofegante no meu ouvido, que no escuro me contava que me querias tanto quanto te queria a ti. Sentia as tuas mãos quentes por todo o corpo, passeavam-se sem os limites que nunca te impus e inebriavam-me a cada novo toque, sempre diferente, sempre doce e excitante.  Nada me fazia lembrar do antes porque foi naquele momento que nasci, como se te ter fosse o início da vida como sempre a sonhei.

Abri os olhos para nos decorar na vontade de te sentir além de tudo o que é terreno. Despertei no momento em que me apercebi que afinal os lençóis não tinham o contorno nem o calor do teu corpo e o meu estava vazio de ti. Agora, como sempre, a cama parecia o deserto. Chorei.

Amanhã foi tarde demais.

Não eram raras as vezes que a sua mente fugia sem aviso, para se refugiar junto dele. Nessas alturas conseguia sempre sentir-lhe o cheiro ou deliciar-se com o seu sorriso quase divino, factos que aprendeu, com o tempo, a desvalorizar. Foi a forma que encontrou de se manter sã na decisão de que sozinha e sem ele o caminho se faria melhor e mais ligeiro.

Ainda acreditava na inteligência e perspicácia do passo que deu quando lhe sugeriu que não cruzassem mais o mesmo destino. Era uma romântica inveterada até deixar de sê-lo. Um dia acordou e percebeu que os pressupostos do amor pelos quais regrava a sua vida não eram mais que moedas lançadas à fonte dos seus desejos. Foi nesse dia, também, que o sentou à mesa num dos seus jantares dos quais ninguém fazia ideia, e sem pensar muito sobre o assunto comunicou-lhe que já não fazia sentido.

Saber que não era a única na sua vida, pelo menos a principal, amargava-lhe a boca que ele adoçava com beijos e promessas de que depois seria diferente. Nunca sentiu culpa, nunca achou que fosse útil senti-la, mas quando se sentiu sozinha, foi quando não quis mais. Sempre concordou que a solidão acompanhada era a pior forma de se estar só.

Estava só agora. Confundia a vontade de companhia com a vontade da sua companhia e era comum encontrar-se com o telefone na mão, pronta para chamá-lo só mais uma vez. Nessas alturas fechava os olhos e em vez de recordar tentava recriar as expectativa de um futuro com ele. Era sempre nesse momento que pousava o telefone e voltava à sua solidão protegida. De que lhe servia um erro hoje, que continuaria a sê-lo amanhã?   

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D