As minhas fotografias
Revirei fotografias antigas tiradas pela mão do acaso. Vi mortos que estão tão vivos, vivos que decidiram morrer. Encontrei-me mas não me revi. Uma gaveta cheia de vida que não é. Uma pilha de lembranças tão inúteis quanto o ardor que deixam no peito. Atrás, no tempo onde se congelou a eternidade, a verdade era mentira. Os sorrisos, os abraços, as expressões de afectos transformados. Quase tudo era mentira. Sobrou papel e sombras. Sobrou pouco mais que pó e memórias sem sentido. Sobra a lágrima que não o chega a ser, que se envergonha e permanece no canto, marejando os olhos, poupando o rosto. É a alma quem se molha, quem se resfria, mas é também ela que se ergue no corpo, menos inocente, menos vulnerável, mais capaz de viver a pureza da verdade.
