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2 Steps Back

"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego

2 Steps Back

"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego

Hoje descanso aqui.

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Há quatro anos dei dois passos atrás para me ver à distancia. Com mais ou menos vontade, mais ou menos inspiração, mais ou menos coerência, fui destilando os meus medos, largando as minhas fantasias, tornando palpável aquilo que por ser inexplicável se tornava assustador. Desmistifiquei e reduzi a adjectivos sentimentos e frustrações. Angústias passadas, temores futuros. Foi por aqui, na solidão daquilo que só eu sabia sentir, que me permiti partilhar a minha dor. Parti-a em pedaços cada vez mais pequenos até ser pó, na ânsia que fosse nada. Deixei de escrever da mesma forma que comecei. Por impulso, por falta de esperança. Ambas as decisões serviram o propósito. Não que durante o último ano não tenha tido nada para dizer nem medos para filtrar. Talvez por ter tanto sufoquei-me nas palavras. Isto não é um regresso. É um curativo na alma. Um paliativo ao 'eu' moribundo que terá inevitavelmente de renascer no mesmo corpo, com a mesma bagagem, mas agora com a sabedoria de que nada pode ser igual, porque tudo o resto mudou.

Não planeei passar por cá nesta minha viagem de volta a mim, mas neste silêncio sufocante com que a noite sempre me brinda sossegou-me esta parada. Passar o dedo nos textos empoeirados pelo tempo, desfigurados pelas verdades que mudaram, pela vida que rasteira mas vai sabendo o que faz. Se disser que estou em paz vou mentir, e eu tento já não me mentir. Sinto-me acabada de chegar a uma paragem estratégica antes de seguir caminho, cansada do que já palmilhei, carregada de malas e inutilidades que vou aprendendo a largar pelas estradas que vou trilhando. O ar ainda é pesado, ainda me sufoco. Às vezes, nas noites que parecem não ter fim, onde a mente vagueia na indecisão de se deixar levar pelo cansaço, confesso que dou por mim a esticar o braço à procura do outro braço. Era apanágio nas horas de asfixia. Agarrar e sentir que a solidão se fazia acompanhada. A solidão nunca se faz acompanhada. Aprendo isso por cada vez que, nessas alturas, a minha mão agarra o vazio e é nesse vazio que me construo. É no vazio que há espaço para me reconstruir. Às vezes é preciso perder um braço para saber, finalmente, usar o outro.

Gostei desta passagem. Sei que nos encontraremos por outras paragens.

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