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2 Steps Back

"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego

2 Steps Back

"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego

Um 2014 de luz.

Em 2012, por esta altura, estava zangada com o ano que chegava ao fim. 2013 não gostou e vingou-se do meu desagrado como que um castigo que carrego em cada suspiro. Rever estes 365 dias num minuto é encontrar mais dor que alegria, mais lágrimas que sorrisos, é marcar ausências que embora não pareçam, ainda, reais, são para sempre e não há volta a dar por mais voltas que o mundo dê. Olho para trás por cima do ombro e chove, o dia que foi este ano está cinzento e triste e partiu-me o coração que se vai cicatrizando devagar, devagarinho. Ouvi ontem que um coração partido deixa entrar luz pelas fissuras. Que assim seja.

Não gosto da passagem de ano, da festa e da euforia que é suposto sentir quando os zeros no relógio se alinham. Este é tão somente, para mim, um dia de reflexão onde coloco na balança o bom e o mau, e permito-me o luxo de trancar tudo em mais uma caixinha que abrirei apenas para retirar boas memórias e lições. Ainda assim, no momento em que o fogo rebenta nos céus e a esperança é maior, volto a ser criança ingénua e deixo-me acreditar que a mudança será para melhor. É apenas isto que gosto no passo em frente rumo a mais um Janeiro, a ideia, talvez utópica, de que posso recomeçar com novo fôlego, numa nova caminhada onde todos os trilhos estão em aberto. Assim o destino ajude e desta vez só os bons serão percorridos. Que haja luz em 2014. 

Mudanças de esperança.

"Eu tenho uma espécie de dever, dever de sonhar, de sonhar sempre, pois sendo mais do que um espectador de mim mesmo, eu tenho que ter o melhor espectáculo que posso. E assim me construo a ouro e sedas, em salas supostas invento palco, cenário para viver o meu sonho entre luzes brandas e músicas invisíveis." Que a última noite do ano seja serena e cheia de sonhos bons.

E foi, assim, citando Pessoa, que me despedi de 2011, sonhando e acreditando num 2012 cheio de oportunidades, esperança e conquistas. Na verdade, hoje, precisamente um ano depois, sinto o mesmo em relação aos 365 dias que se aproximam. Não muda nada, eu sei. É a viragem de um dia que, por acaso do calendário, muda o último algarismo do número que forma o ano. A mudança não está no tempo, mas em nós.

2012 foi um ano cruel. Atacou-me à traição, sem explicação, sem previsão. Tive conquistas, sim. Mas que foram em tantas vezes camufladas pela dor que este ano que, agora dá o seu último suspiro, me causou. Por cada vez que respirava de alívio algo me feria o coração. Foi um ano de luta constante contra algo que ainda, neste momento, não sei explicar e não passou. Foi um ano de murros no estômago, magoando-me ao ver tamanha dor no rosto dos meus, apanhados na teia da idade, nos males da sua doença. Foi um ano de perdas tão jovens, e ainda dói saber que serão ausência em 2013. Foi um ano de provações a todos os níveis, de confronto com tudo o que dói, olhos nos olhos com a vida e com a morte, com anjos e demónios, com a dor e a doença, a possibilidade iminente, pairando sobre as nossas cabeças, de perder as minhas referências de infância, que me enchem tanto o coração.

Estou triste e cansada de 2012. Zanguei-me para a vida com este ano malvado que nos trouxe tantos momentos de aflição, tantos corações apertados nas mãos que o medo gelou. Tenho presente cada lágrima, cada choro sentido dos meus. A notícia do fim, que ouvi e tive de repetir vezes sem conta aos olhos sem vida que me olhavam. O sofrimento do outro lado do telefone, a distância de não poder amparar a amiga que amargura a dor de perder outra. O nó na garganta quando me pede, entre um soluçar desesperado, para não partir também e a deixar órfã de mais um amparo, de mais uma amizade. Que ano ruim. Que ano sofrido.

Não, a mudança de um segundo para o outro não define o que o resto do ano será. Mas dá-nos nova esperança, a oportunidade de começar do zero, a bênção de sentir que podemos tudo, pois ainda nada começou. E é por isso que vejo 2012 morrer, com a mesma esperança que o vi nascer, carregando agora comigo todas as lições que me obrigou a decorar. Então desejo novamente, acreditando piamente naquilo que digo, que 2013 seja o ano da magia, da bondade inesperada, da vida a florescer, a seguir o seu caminho que é em frente que se faz. Que 2013 nos traga paz e lucidez, que nos faça reflectir em nós e nos outros, abrindo as nossas mentes e corações, dando a mão ao próximo, que tendemos, invariavelmente, a ignorar e desprezar. Que 2013 seja o ano dos sonhos, daqueles que tanto penso, falo e acredito. Que seja mesmo, de uma vez por todas, o ano dos sonhos materializados nas nossas mãos e da alegria a preencher-nos o coração.

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