Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

2 Steps Back

"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego

2 Steps Back

"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego

As minhas fotografias

klo.jpg

Revirei fotografias antigas tiradas pela mão do acaso. Vi mortos que estão tão vivos, vivos que decidiram morrer. Encontrei-me mas não me revi. Uma gaveta cheia de vida que não é. Uma pilha de lembranças tão inúteis quanto o ardor que deixam no peito. Atrás, no tempo onde se congelou a eternidade, a verdade era mentira. Os sorrisos, os abraços, as expressões de afectos transformados. Quase tudo era mentira. Sobrou papel e sombras. Sobrou pouco mais que pó e memórias sem sentido. Sobra a lágrima que não o chega a ser, que se envergonha e permanece no canto, marejando os olhos, poupando o rosto. É a alma quem se molha, quem se resfria, mas é também ela que se ergue no corpo, menos inocente, menos vulnerável, mais capaz de viver a pureza da verdade.

Também há inferno nas palavras bonitas.

Hoje li uma frase que dizia o seguinte: "Palavras bonitas não escondem pessoas feias." Senti o cérebro entrar em modo automático, como se algo tivesse sido accionado, e o seu rosto surgiu na minha mente, claro como água. Durante anos as palavras bonitas que dizia, fizeram com que a sua companhia fosse tão doce. Era culto, era simpático, lia Florbela e sabia de cor Vinicius. Tratava-me com jeito, como quem gosta. Sentou-me ao colo tantas vezes e era um colo que eu gostava de ter. A cabeça no ombro vezes sem conta, as conversas divertidas, às vezes sérias o suficiente para a idade, as piadas constantes, impulsionando a vontade de ter a sua pessoa comigo.

Nunca lhe chamei tio, sempre o tratei pelo nome. O resto dos primos achavam esquisito, mas eu habituei-me assim, e isso para mim não era sinal de afastamento, era a maior prova de proximidade, cumplicidade. Tratávamo-nos de igual para igual e eu gostava disso. Nunca se dirigiu a mim sem um sorriso, sem o braço à volta do ombro nem o beijo na testa. Lembro-me de ir mais cedo para o treino e o primo não estar em casa. Era ao trabalho dele que ia ter. Sentava-me e falava da escola, dos livros que lia e ele recomendava, escutava-me e sorria, sorria sempre.

Quando o sorriso deixou de aparecer, quando percebi que o beijo na testa e as conversas sobre livros não iam mais acontecer, chorei. Não é morte, mas é. A pessoa com quem eu cresci, de quem ansiava tantas vezes a companhia bondosa e que me aquecia o coração por saber que ia lá estar, não estava mais, não existia. Pior, nunca tinha existido e as palavras bonitas não o escondiam mais. E isso é, talvez, o mais próximo que estive do luto.

Hoje já não choro, emendo-me quando sinto raiva, porque sei bem que a raiva só nos corroi a nós próprios, mas ainda é um trabalho em progresso. Sinto apenas pena. Pena que pessoas feias tenham acesso à dádiva que são as palavras bonitas. 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D