"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
Revirei fotografias antigas tiradas pela mão do acaso. Vi mortos que estão tão vivos, vivos que decidiram morrer. Encontrei-me mas não me revi. Uma gaveta cheia de vida que não é. Uma pilha de lembranças tão inúteis quanto o ardor que deixam no peito. Atrás, no tempo onde se congelou a eternidade, a verdade era mentira. Os sorrisos, os abraços, as expressões de afectos transformados. Quase tudo era mentira. Sobrou papel e sombras. Sobrou pouco mais que pó e memórias sem sentido. Sobra a lágrima que não o chega a ser, que se envergonha e permanece no canto, marejando os olhos, poupando o rosto. É a alma quem se molha, quem se resfria, mas é também ela que se ergue no corpo, menos inocente, menos vulnerável, mais capaz de viver a pureza da verdade.
Hoje li uma frase que dizia o seguinte: "Palavras bonitas não escondem pessoas feias." Senti o cérebro entrar em modo automático, como se algo tivesse sido accionado, e o seu rosto surgiu na minha mente, claro como água. Durante anos as palavras bonitas que dizia, fizeram com que a sua companhia fosse tão doce. Era culto, era simpático, lia Florbela e sabia de cor Vinicius. Tratava-me com jeito, como quem gosta. Sentou-me ao colo tantas vezes e era um colo que eu gostava de ter. A cabeça no ombro vezes sem conta, as conversas divertidas, às vezes sérias o suficiente para a idade, as piadas constantes, impulsionando a vontade de ter a sua pessoa comigo.
Nunca lhe chamei tio, sempre o tratei pelo nome. O resto dos primos achavam esquisito, mas eu habituei-me assim, e isso para mim não era sinal de afastamento, era a maior prova de proximidade, cumplicidade. Tratávamo-nos de igual para igual e eu gostava disso. Nunca se dirigiu a mim sem um sorriso, sem o braço à volta do ombro nem o beijo na testa. Lembro-me de ir mais cedo para o treino e o primo não estar em casa. Era ao trabalho dele que ia ter. Sentava-me e falava da escola, dos livros que lia e ele recomendava, escutava-me e sorria, sorria sempre.
Quando o sorriso deixou de aparecer, quando percebi que o beijo na testa e as conversas sobre livros não iam mais acontecer, chorei. Não é morte, mas é. A pessoa com quem eu cresci, de quem ansiava tantas vezes a companhia bondosa e que me aquecia o coração por saber que ia lá estar, não estava mais, não existia. Pior, nunca tinha existido e as palavras bonitas não o escondiam mais. E isso é, talvez, o mais próximo que estive do luto.
Hoje já não choro, emendo-me quando sinto raiva, porque sei bem que a raiva só nos corroi a nós próprios, mas ainda é um trabalho em progresso. Sinto apenas pena. Pena que pessoas feias tenham acesso à dádiva que são as palavras bonitas.