"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este há um virar de página e a história continua.", Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
Revirei fotografias antigas tiradas pela mão do acaso. Vi mortos que estão tão vivos, vivos que decidiram morrer. Encontrei-me mas não me revi. Uma gaveta cheia de vida que não é. Uma pilha de lembranças tão inúteis quanto o ardor que deixam no peito. Atrás, no tempo onde se congelou a eternidade, a verdade era mentira. Os sorrisos, os abraços, as expressões de afectos transformados. Quase tudo era mentira. Sobrou papel e sombras. Sobrou pouco mais que pó e memórias sem sentido. Sobra a lágrima que não o chega a ser, que se envergonha e permanece no canto, marejando os olhos, poupando o rosto. É a alma quem se molha, quem se resfria, mas é também ela que se ergue no corpo, menos inocente, menos vulnerável, mais capaz de viver a pureza da verdade.
Não. A palavra chocou com o seu corpo com violência, entrou por cada poro da sua pele, percorreu-lhe as veias e explodiu no coração. Pelo menos foi essa a sensação de ouvir, com firme frieza, aquilo que sempre soube mas que nunca lhe tinha sido dito. Não. A esperança morreu-lhe nas mãos, segurou as lágrimas que quiseram denunciar-lhe a dor, mas manteve-se inerte. Que sofresse calada, que engolisse o choro, que aguentasse cada facada que o seu coração parecia sofrer por cada vez que palpitava, pois a culpa, essa, era apenas sua.
Sempre soube que nunca iria viver a história que desde muito cedo escreveu na sua cabeça. Teve provas de que o príncipe era apenas um lacaio fingindo-se de rei. Ainda assim, por teimosia ou inocência, deixou crescer um amor sem alicerces, apoiado num chão podre, iminente da derrocada. Cresceu para além do óbvio, do basta, do não faz sequer sentido. Deixou crescer, porque viver na ilusão dava-lhe a esperança inventada de que, agora não, mas um dia o destino cumprir-se-ia. Cumpriu-se.
Sozinha na cama remói a palavra. Deposita nela o ódio que sente por ele, estando perfeitamente consciente de que não existe ódio onde não houve um dia amor. Nessa linha ténue entre os dois sentimentos tenta adormecer, sem ilusões de que o seu rosto não lhe apareça, novamente, nos seus sonhos. Sofreu na incerteza, adiando a verdade, porque sabia o quanto ia doer. Contorce-se agora com as duas dores, a do tempo perdido e a do tempo que nunca ganhará.