Trinta.
Trinta. São precisos mais que dois segundos para contar até trinta, mais que duas mãos para materializar tantos dias. Não dei pelo tempo que passou. Na minha mente sou ainda a menina de mão dada com a avó a subir a estrada que me levava à escola, sou ainda a miúda que tinha medo mas fazia à mesma. E ria. E era tonta. E sonhava porque tinha todo o tempo do Mundo para realizar. "Isto passa a correr". Ouvia do meu avô que falava dos seus vinte anos mais vezes que aquelas que me dispus a ouvir. Também ele era eterno. Também para ele teria todo o tempo do Mundo. "Isto passa a correr". E de repente deixei de dar colo à minha irmã para, tantas vezes, procurar o dela. "Isto passa a correr". E agora sou eu que dou a mão à avó para ela subir as escadas até casa sem tropeçar nos cinquenta anos que nos separam e que lhe pesam no corpo e, por vezes, na alma. Sou, irremediavelmente, saudosista. Nostálgica de berço, acho. Não gosto de o ser. Assumo-me como sou. Olho para trás mais vezes do que seria ideal. Mas talvez isso me mantenha presa às minhas raízes, fiel à herança que o passado dos meus me deixou, e me faça dar mais valor ao tempo e às minhas pessoas. Trinta. Trinta é uma palavra demasiado pequena para tudo o que vivi. Espero que tenha tamanho suficiente para açambarcar tudo o que ainda quero viver.
