Visita-me noutro dia.
Não sei se sabes, mas temo-nos encontrado todas as noites. Na verdade, se o souberes, tudo o que acreditávamos é mentira e somos muito mais do que um corpo. Não que me importe de te ver e rever, estar mais uma vez ao pé de ti ainda que numa dimensão que não a minha. Mas não assim. Não quando, todas as vezes que nos cruzamos, te veja a sofrer, a definhar, a pedir-me o último abraço. Aquele que não demos. Nunca demos muitos, pois não?
Resolvi escrever-te na esperança de não te ver. Ironias do destino. Que saudades de ti. Da tua voz, das tuas mãos, das tuas rimas de métrica duvidosa mas de sabedoria inegável e das histórias repetidas que me enfadavam até ao desespero. Fechava os olhos enquanto as contavas, adormecia, acordava e não davas por isso. Ficávamos contentes os dois. Espero que o estejas ainda, se estiveres em alguma parte que não seja o peito de cada um dos teus.
Estás sempre comigo, mas assim não quero. Talvez tenha ficado muita coisa por dizer, mas não fica sempre? As palavras, os beijos e os abraços são sempre em menor escala do que aquela que deveriam ser, e já fiz as pazes com o facto de que só damos valor quando estamos prestes a perder. Falha nossa, não tanto tua, que sempre apregoaste o contrário.
Eras muito mais do que aquilo que és nestas visitas sem pedir licença. Não te quero recordar como uma sombra do homem que me pegava ao colo, que atravessava o Tejo mais vezes do que aquelas que alguma vez conseguimos contar, que lavrava campos de sol a sol e que, mesmo assim, encontrava na sua vida mais sorrisos que tristezas, ainda que ela sempre tivesse tido mais tristezas que sorrisos.
Visita-me noutro dia, quando puderes ser aquele que te define e te honra. Por agora fica aqui, velado pelo calor do meu coração, apertado de saudade, mas rebentando de orgulho por fazeres parte dele.
